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Reflexões e Inspirações 

Do avesso

8 de set.
3 min de leitura

Talvez exista um momento em que a própria mente deixe de parecer um lugar conhecido. As coisas continuam onde sempre estiveram, o quarto ainda é o mesmo, as pessoas continuam vivendo do lado de fora, o relógio não interrompe seu movimento, mas alguma coisa dentro de nós muda de posição e, de repente, observar o mundo pela fresta parece mais fácil do que participar dele. É estranho perceber que podemos passar anos construindo uma versão de nós mesmos capaz de suportar tudo: aprendemos a sorrir quando não sabemos exatamente como, transformamos silêncio em armadura, escondemos certas perguntas atrás de respostas ensaiadas e seguimos andando como se conhecer o próximo passo significasse conhecer o caminho inteiro. Talvez seja assim que algumas carapaças começam. Não necessariamente porque queremos nos afastar do mundo, mas porque em algum momento descobrimos que sentir tudo sem proteção também machuca. O problema é que uma armadura eficiente demais não escolhe aquilo que impede de entrar. Ela barra golpes, mas também abraços; diminui o medo, mas pode diminuir o espanto; mantém certas pessoas do lado de fora e, aos poucos, talvez mantenha uma parte de nós lá também. Então surge aquela pergunta incômoda que nenhuma aparência consegue responder por muito tempo: quem sobra quando tudo aquilo que aprendemos a representar fica em silêncio? Talvez descobrir quem somos seja mais difícil justamente porque passamos boa parte da existência aprendendo quem precisaríamos parecer. Existe o personagem que funciona, o que aguenta, o que faz piada, o que não chora, o que sabe para onde está indo, e existe alguém por trás deles tentando descobrir se ainda reconhece o próprio rosto. Em alguns períodos, essa distância cresce tanto que a vida parece virar de cabeça para baixo. Aquilo que antes fazia sentido perde peso, o futuro parece uma porta para algum lugar desconhecido e pensamentos que pareciam distantes passam a ocupar a sala inteira. É como abrir um portal dentro do próprio quarto e perceber que não existe garantia de encontrar apenas coisas agradáveis do outro lado. Talvez por isso tanta gente tenha medo do silêncio. Quando o barulho termina, algumas perguntas começam a falar. E nem todas perguntam coisas simples. Algumas nos levam até bordas que preferíamos acreditar que não existiam, lugares internos onde percebemos que determinadas escolhas realmente não possuem caminho de volta. Ainda assim, chegar perto do precipício não significa necessariamente querer saltar. Às vezes significa apenas descobrir que ele estava ali. Talvez amadurecer também envolva reconhecer certas profundidades sem precisar habitá-las, entender que existe escuridão sem transformá-la em destino e aceitar que nem todo pensamento precisa se tornar caminho. Porque há uma diferença silenciosa entre conhecer o próprio abismo e entregar a ele a responsabilidade de dizer quem somos. Talvez o mundo invertido comece justamente quando confundimos essas duas coisas. Quando acreditamos que estar perdido significa não existir mais, que cair significa ter se tornado a queda, que atravessar uma fase escura transforma a escuridão em identidade. Mas talvez nós sejamos maiores do que o lugar em que nos encontramos. Talvez seja possível olhar para o espaço desorganizado que existe dentro da gente, admitir que alguma coisa saiu do lugar e, em vez de fingir que nada aconteceu, começar lentamente a reorganizá-lo. Não para voltar exatamente ao que éramos antes. Algumas versões nossas não voltam. Talvez nem devessem. Existe alguma coisa profundamente humana em transformar aquilo que quase nos destruiu em matéria para construir alguma coisa diferente, como quem observa um quarto revirado e decide não reconstruí-lo exatamente da mesma maneira. Talvez seja por isso que certas crises mudem tanto uma pessoa: depois de olhar para dentro por tempo suficiente, algumas certezas já não conseguem ocupar os mesmos lugares. Continuamos sem saber completamente quem somos, continuamos carregando sombras, contradições e versões que nem sempre combinam entre si, mas talvez identidade nunca tenha sido a descoberta de uma resposta definitiva. Talvez sejamos esse movimento estranho entre aquilo que fomos, aquilo que precisamos fingir ser e aquilo que ainda estamos tentando construir. E quem sabe colocar o próprio mundo novamente de pé não signifique desvirá-lo por completo, mas aprender a caminhar nele mesmo enquanto algumas coisas continuam de cabeça para baixo.

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