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Reflexões e Inspirações 

Cântico ao Mago do Abismo

Havia um tempo em que os ventos sabiam seu nome… ou talvez fosse você quem pensava saber o deles. Porque, no fim, tudo que resta são ecos — ecos de promessas feitas à beira de mares que nunca respondem, de estrelas que observam em silêncio e de corações que aprenderam a bater mesmo quando já estavam em pedaços.

E eu te vi ali… parado entre o fogo e a ausência, como alguém que já não sabe se espera ou se apenas se perdeu no hábito de esperar.

Dizem que, além do mar, existe uma terra onde os magos não envelhecem — não porque são eternos, mas porque carregam tanto peso na alma que o tempo se curva, com pena ou respeito… ninguém sabe ao certo. E entre esses magos, há um em especial, aquele que acende lareiras em noites frias e transforma silêncio em histórias, como se cada palavra fosse um feitiço tentando consertar algo que já nasceu quebrado.

Talvez tenha sido por isso que você o chamou.

Não por poder… não por glória… mas por aquilo que falta.

Sempre há algo faltando.

Um pedaço de riso que ficou em outra vida, um toque que nunca aconteceu, um amor que chegou tarde demais ou cedo demais… ou apenas no momento errado, que é o pior de todos. E então você segue, com esse vazio disfarçado de coragem, fingindo que sabe o caminho enquanto a guerra cresce dentro e fora de você.

Ah… a guerra.

Ela nunca é só de espadas.

Ela vive nos olhos cansados, nos pensamentos que não descansam, nas noites em que o sono vem, mas não traz paz. Corvos e pardais sobrevoam o mesmo céu, mas só um deles carrega o presságio… e, ainda assim, ambos continuam voando.

Como você.

E mesmo assim… você ousou pedir.

“Me leve…”

Não para um lugar… mas para longe.

Longe de si mesmo, talvez. Longe dessa versão que aprendeu a resistir, mas esqueceu como sentir. Porque, no fundo, o que você queria nunca foi escapar da guerra… foi aprender a amar no meio dela.

E isso… nem todos os magos sabem ensinar.

Dizem que há feitiços que não se quebram com força, nem com tempo… mas com algo mais simples e mais cruel: entrega. E não, não aquela entrega bonita das histórias… mas a entrega real, onde você precisa aceitar que pode se perder completamente antes de se encontrar.

E ainda assim, você continuou chamando por ele.

Mesmo sabendo… ou suspeitando… que o mago não era o herói da história.

Talvez um monstro.

Talvez alguém que já se afogou tantas vezes nas próprias profundezas que esqueceu como respirar na superfície. Alguém cujo rosto não se mostra porque carrega mais do que cicatrizes… carrega segredos que nem o mar ousa revelar.

E mesmo assim…

Você disse que mergulharia.

E é aí que a canção muda.

Porque qualquer um ama a luz… mas poucos escolhem descer até o fundo escuro onde o outro se esconde. Poucos escolhem esperar à beira do lago, sem garantias, sem promessas, apenas com a fé silenciosa de que, em algum momento, algo — ou alguém — vai emergir das águas.

E você esperou.

Não como quem exige… mas como quem oferece.

Seus braços como abrigo, seu peito como lar, sua presença como uma resposta que nunca foi pedida em palavras. Porque, às vezes, o maior feitiço não é aquele que transforma o mundo… mas aquele que diz, em silêncio: “fica”.

Mas o abismo… ah, o abismo sempre escuta.

Ele sente o medo antes mesmo de você nomeá-lo. Ele cresce nas pausas, nos pensamentos não ditos, nas dúvidas que você tenta ignorar. E quanto mais você deseja… mais ele se aproxima, como se quisesse testar até onde vai sua coragem.

“Engula meu medo…”

Você disse.

E talvez tenha sido esse o verdadeiro ritual.

Não chamar o mago.

Mas desafiar o abismo.

Porque no fim… não é o mago que concede desejos. Não é o beijo que quebra o feitiço. Não é o destino que escolhe o final da história.

É você.

Você, que mesmo quebrado, ainda acredita.

Você, que mesmo com medo, ainda mergulha.

Você, que mesmo em guerra… ainda ousa amar.

E se existe magia nisso tudo…

Ela não está nele.

Ela nunca esteve.

Ela sempre foi sua.

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