Quando ninguém lê
- Reflexões e Inspirações
- há 6 dias
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Há um tipo de medo que quase nunca faz barulho. Ele não impede alguém de começar a escrever, mas faz com que apague tudo antes que qualquer pessoa tenha a chance de ler. É um medo curioso, porque nem sempre nasce da crítica que realmente aconteceu; muitas vezes ele é construído por críticas que só existem na imaginação. Escrevemos uma frase, depois outra, voltamos para a primeira, mudamos uma palavra, apagamos um parágrafo inteiro, recomeçamos do zero, e aquilo que poderia ter sido apenas um texto acaba se transformando em uma conversa silenciosa entre nós e uma plateia que nem sequer está presente. O mais estranho é que, em muitos casos, essa plateia quase não existe. Talvez poucas pessoas leiam o que publicamos. Talvez ninguém pare por mais de alguns segundos. Ainda assim, agimos como se estivéssemos diante de um auditório lotado, esperando o instante exato em que alguém levantará a mão para provar que não somos bons o bastante.
É curioso perceber como conseguimos ter tanto medo de um julgamento que talvez nunca aconteça. Antes mesmo de qualquer leitor formar uma opinião, nós já fizemos esse trabalho por ele. Não damos ao outro a oportunidade de discordar, porque primeiro concordamos com todas as críticas imaginárias que criamos. Dizemos que o texto está fraco, que a ideia parece comum demais, que alguém certamente escreveria melhor, que ninguém vai entender, que ninguém vai sentir o que sentimos. Aos poucos, deixamos de escrever para descobrir o que as pessoas pensam e passamos a escrever tentando adivinhar o que elas poderiam pensar. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. A primeira exige coragem. A segunda exige um controle impossível.
Talvez o medo não seja exatamente de receber críticas. Críticas podem machucar, mas também terminam. O medo verdadeiro parece ser outro: o de confirmar uma suspeita que carregamos em silêncio, a de que talvez nunca sejamos suficientes. Então cada texto deixa de ser apenas um conjunto de palavras e passa a funcionar como um julgamento sobre quem somos. Se gostam, por alguns instantes respiramos aliviados. Se ignoram, sentimos que fomos ignorados junto com ele. Se alguém critica uma frase, parece que criticou toda a nossa capacidade de pensar. O problema é que nenhum texto deveria carregar um peso tão grande. Uma página não deveria ter a responsabilidade de decidir o valor de quem a escreveu.
Talvez seja por isso que apagar se torne tão confortável. Enquanto o texto continua escondido, ele nunca pode fracassar. Dentro do rascunho, tudo ainda é uma possibilidade. A ideia ainda pode ser brilhante. A emoção ainda pode tocar alguém. A reflexão ainda pode mudar uma pessoa. Nada foi colocado à prova. E, de certa forma, existe uma segurança estranha em nunca descobrir. O problema é que essa mesma proteção também impede qualquer outra possibilidade. O texto que não é publicado também nunca emociona, nunca encontra alguém que precisava exatamente daquelas palavras, nunca faz companhia para quem acreditava estar sozinho. Na tentativa de evitar uma rejeição improvável, acabamos impedindo até os encontros que poderiam acontecer.
Existe também uma cobrança silenciosa por perfeição que parece acompanhar quem escreve. Como se cada texto precisasse ser o melhor já produzido, como se não houvesse espaço para dias comuns, para ideias incompletas ou para reflexões que ainda estão amadurecendo. Esquecemos que quase tudo o que admiramos passou por versões ruins antes de chegar à forma que conhecemos. Nenhum pensamento nasce pronto. Nenhuma voz encontra sua identidade sem antes parecer insegura. Mas, curiosamente, aceitamos esse processo para quase tudo na vida, menos para nós mesmos. Permitimos que uma árvore cresça devagar, que uma criança aprenda errando, que um músico desafine enquanto aprende um instrumento. Só não aceitamos que nossa escrita tenha o direito de evoluir.
Talvez isso aconteça porque escrever tem algo que poucas atividades possuem: inevitavelmente deixa um pedaço de nós exposto. Mesmo quando falamos de assuntos gerais, existe sempre uma maneira particular de observar o mundo escondida entre as linhas. Escrever é permitir que alguém enxergue não apenas uma ideia, mas a forma como organizamos essa ideia. E talvez seja justamente isso que assuste. Não é a frase que pode ser rejeitada. É a sensação de que fomos vistos por alguns instantes. Por isso apagar parece mais fácil do que permanecer vulnerável.
Mas há uma pergunta que raramente fazemos. Quantos dos textos que apagamos realmente eram ruins e quantos apenas não correspondiam ao ideal impossível que criamos dentro da cabeça? Quantas palavras desapareceram não porque faltava qualidade, mas porque sobrava exigência? Talvez nunca saibamos. Afinal, um texto apagado leva consigo qualquer chance de ser reinterpretado por alguém. Ele morre carregando apenas o julgamento do próprio autor.
No fim, talvez o maior obstáculo para quem escreve não seja aprender novas palavras, dominar melhor a linguagem ou encontrar temas mais interessantes. Talvez seja aceitar que nenhuma reflexão nasce perfeita e que o silêncio também é uma forma de perder. Porque existe uma diferença entre um texto que foi criticado e um texto que nunca existiu para ninguém. O primeiro ainda encontrou um leitor. O segundo encontrou apenas o medo. E talvez algumas das páginas que mais fariam companhia a alguém continuem escondidas justamente porque seu autor acreditou, cedo demais, que ninguém as leria.




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