Reflexo Que Fere
Tem dias em que o espelho não reflete um rosto, mas uma sentença silenciosa, como se cada traço fosse um erro gritado em silêncio, como se a própria existência fosse um rascunho mal feito que ninguém quis revisar, e é estranho perceber como, no meio de tantas vozes ao redor, a mais cruel sempre acaba sendo a nossa própria, repetindo incansavelmente que não é suficiente, que não é bonito, que não é digno de ser visto sem julgamento, enquanto o mundo segue girando indiferente, cheio de risos que parecem mais altos quando a gente se sente pequeno, mais cortantes quando a gente já está ferido, e então nasce essa necessidade de esconder, de fingir que está tudo bem, de vestir uma versão aceitável de si mesmo só para sobreviver mais um dia sem que ninguém perceba o caos por dentro, porque admitir a dor parece mais difícil do que suportá-la, e no fundo existe um cansaço que não vem do corpo, mas da mente, de ter que lutar contra pensamentos que não pedem permissão para existir, de encarar o próprio reflexo como se fosse um inimigo, de sentir que cada comparação é uma derrota antecipada, como se todos estivessem em um lugar melhor, mais bonito, mais leve, enquanto você fica preso nesse ciclo onde até sorrir parece artificial, quase um esforço mecânico que perdeu o sentido, e aos poucos o mundo lá fora vai perdendo a cor, os convites deixam de fazer sentido, sair de casa vira um desafio silencioso, e o isolamento começa a parecer mais confortável do que enfrentar olhares que talvez nem estejam julgando, mas que na sua cabeça já condenaram antes mesmo de acontecer, e no meio disso tudo surge aquela pergunta que ecoa sem resposta: até quando?, até quando vai doer olhar para si mesmo?, até quando vai ser necessário fingir força quando tudo que existe é um cansaço profundo?, e o pior não é nem a dor em si, mas a constância dela, como uma chuva fina que nunca vira tempestade o suficiente para acabar, mas também nunca para, apenas continua, silenciosa, insistente, desgastando aos poucos aquilo que ainda resta de esperança, até que em algum momento você percebe que não é só sobre aparência, nunca foi, é sobre não se reconhecer, sobre não se aceitar, sobre sentir que existe uma distância enorme entre quem você é e quem você acha que deveria ser, e essa distância machuca, porque parece impossível de atravessar, mas mesmo assim, em algum canto quase esquecido dentro de você, ainda existe algo que resiste, uma pequena parte que observa tudo isso e, mesmo cansada, ainda não desistiu completamente, mesmo que você não perceba, mesmo que você não acredite, ela ainda está lá… esperando.



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