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Reflexões e Inspirações 

Se eu morrer

Se um dia disserem a vocês que eu morri, talvez não seja exatamente mentira. Talvez ainda encontrem meu rosto pelas ruas, escutem minha voz, recebam minhas mensagens e percebam que continuo fazendo muitas das coisas que sempre fiz, mas isso não significa que aquela pessoa que vocês conheceram ainda esteja aqui. Algumas mortes não precisam de um corpo para acontecer. Às vezes, basta uma manhã comum, um espelho e o cansaço de perceber que passamos tempo demais vivendo como alguém que já não reconhecemos. Talvez vocês estranhem quando eu começar a dizer não para coisas que antes aceitava, quando deixar de correr atrás de quem se acostumou a me ver correndo, quando não me explicar tanto, não pedir desculpas por tudo, não diminuir aquilo que sinto apenas para tornar minha presença mais confortável. Talvez digam que fiquei diferente, distante, egoísta ou difícil. E talvez, de alguma maneira, eu realmente tenha mudado. O que vocês talvez não saibam é quanto tempo eu precisei fingir que não estava cansado para continuar sendo aquela pessoa de quem vocês gostavam. Existe uma versão de nós que vai sendo construída quase sem percebermos. Ela aprende quais palavras deve engolir para não criar problemas, quais partes precisa esconder para continuar pertencendo, quando deve sorrir mesmo querendo ir embora, quanto precisa suportar para não decepcionar ninguém. No começo parecem apenas pequenas concessões. Uma vontade deixada para depois. Uma opinião guardada. Um limite ignorado. Uma escolha feita pensando primeiro no que vão dizer. Só que repetimos isso tantas vezes que, em algum momento, já não sabemos se estamos vivendo ou apenas interpretando muito bem alguém que criamos para sermos aceitos. E talvez o pior tipo de prisão seja justamente aquela em que ninguém precisa trancar a porta porque aprendemos sozinhos a não sair. Há pessoas que conhecem nosso jeito de falar, nossas histórias, nossas manias e até aquilo que costumamos pedir quando sentamos à mesa, mas nunca conheceram completamente quem somos, porque conheceram apenas a parte que permitimos existir perto delas. Conheceram quem concordava. Quem voltava. Quem perdoava rapidamente. Quem sempre estava disponível. Quem dizia que estava tudo bem antes mesmo de alguém perguntar. Quem aceitava afundar um pouco para que ninguém ao redor precisasse se molhar. E talvez elas tenham gostado sinceramente dessa pessoa. É isso que torna tudo mais complicado. Nem sempre existe alguém deliberadamente tentando nos controlar; às vezes existe apenas um conjunto de expectativas silenciosas que fomos alimentando durante anos, até que todos passaram a acreditar que aquela versão era realmente nós. Inclusive nós mesmos. Por isso deve ser tão estranho quando alguma coisa muda. Quando finalmente olhamos para o espelho e, em vez de perguntar se estamos agradando, perguntamos se ainda conseguimos nos reconhecer. Talvez algumas respostas sejam difíceis demais para continuar ignorando. Porque chega um momento em que cansa correr atrás de pessoas, cansa sustentar relações sozinho, cansa carregar culpas que não nasceram dentro de nós, cansa passar noites discutindo mentalmente coisas que durante o dia fingimos não incomodar. Cansa ser refém da própria necessidade de não decepcionar ninguém. E talvez seja aí que alguma coisa precise morrer. Não vocês. Não necessariamente aquilo que sentimos por vocês. Mas aquela versão de mim que precisava da aprovação de vocês para existir. Aquela que media cada escolha pela reação que provocaria, que confundia ser necessário com ser amado e que aceitava águas profundas apenas porque tinha medo de descobrir quem permaneceria por perto quando finalmente decidisse nadar para um lugar onde os pés alcançassem o chão. Talvez vocês sintam falta dela. Eu entenderia. Era uma pessoa conveniente em muitos sentidos. Estava presente mesmo quando não queria estar. Aceitava mesmo quando alguma coisa machucava. Voltava mesmo depois de prometer a si mesma que não voltaria. Dava mais uma chance, depois outra, depois chamava de esperança aquilo que talvez já fosse medo de partir. Era fácil contar com alguém assim porque quase nunca existia o risco de ouvir um não. Só havia um problema: enquanto todos sabiam exatamente quem eu deveria ser, eu estava desaprendendo quem era. E talvez vocês nunca tenham percebido isso porque algumas pessoas conseguem desaparecer sem sair de lugar. Continuam trabalhando, conversando, rindo, respondendo quando alguém chama e dizendo “tudo certo” quando perguntam como estão. Por fora, nenhuma ausência. Por dentro, porém, existe alguém procurando a própria voz em meio a tantas outras dizendo como deveria viver. Talvez seja por isso que voltar para si mesmo possa parecer uma morte para quem observa de fora. Certas pessoas não verão alguém finalmente respirando; verão apenas a ausência daquele que sempre dizia sim. Não perceberão alguém aprendendo a se respeitar; perceberão alguém que “não é mais o mesmo”. Não enxergarão os anos que levaram até aquela decisão, apenas o dia em que deixaram de receber aquilo a que estavam acostumadas. E eu não posso culpá-las completamente por isso. Durante muito tempo fui eu quem ensinou aos outros que poderiam esperar aquela versão de mim. Fui eu quem apareceu quando queria desaparecer, quem permaneceu quando desejava partir e quem se calou tantas vezes que o silêncio acabou parecendo personalidade. Talvez crescer também seja reconhecer nossa participação nas próprias prisões. Não para carregar mais uma culpa, mas para perceber que algumas portas sempre estiveram menos trancadas do que imaginávamos. Ainda assim, sair delas não significa que tudo ficará fácil. Existe algo assustador em começar a viver sem perguntar o tempo inteiro se estão gostando de quem estamos nos tornando. Porque, depois de passar anos sendo aquilo que esperavam, ser você mesmo pode parecer quase uma irresponsabilidade. Você começa a escolher roupas, caminhos, pessoas, sonhos, palavras e silêncios sem consultar uma plateia invisível e descobre o quanto havia de outros dentro das decisões que chamava de suas. Algumas escolhas sobrevivem. Outras não. Algumas pessoas continuam. Outras talvez prefiram a versão anterior. E existe uma tristeza particular nisso: perceber que alguém pode sentir falta justamente da pessoa que você precisou deixar de ser para conseguir continuar. Talvez digam que antes eu era mais presente, mais fácil, mais compreensivo, mais disponível. Talvez contem histórias sobre quem eu costumava ser como se estivessem falando de alguém que morreu. De certa forma, estarão. Porque eu também vou lembrar daquela pessoa. Vou lembrar das noites em que ela não conseguia dormir, das conversas que repetia na cabeça, das vezes em que tentou ser suficiente para todos e acabou não sobrando inteira para si. Não quero odiá-la. Ela fez o que sabia fazer. Talvez tenha me mantido vivo durante muito tempo. Só não posso continuar vivendo para mantê-la viva também. Há versões nossas que merecem gratidão, não permanência. E se isso fizer com que algumas pessoas já não me reconheçam, talvez eu precise aprender a suportar o estranhamento delas sem transformá-lo novamente em uma sentença contra mim. Afinal, de que adiantaria passar uma existência inteira sendo reconhecido por todos se, diante do espelho, eu fosse o único incapaz de reconhecer quem estava ali? Então, se algum dia vocês perguntarem onde foi parar aquela pessoa que aceitava tudo, que corria atrás, que se culpava primeiro, que permanecia por medo e fazia de si mesma um lugar pequeno para que todos os outros coubessem, talvez eu não tenha uma resposta que alivie a falta. Também não sei exatamente quando ela foi embora. Talvez tenha sido aos poucos. Em cada limite colocado. Em cada silêncio que finalmente virou palavra. Em cada vez que escolhi não voltar. Em cada noite em que percebi que paz não deveria parecer estranha. Em cada manhã diante do espelho em que comecei, pouco a pouco, a reconhecer alguém que vocês talvez nunca tenham conhecido. E pode ser que sintam falta de quem eu era. Pode ser que prefiram aquela versão. Pode ser até que continuem procurando por ela em mim durante muito tempo. Sobre isso, talvez eu realmente não possa fazer nada. Algumas pessoas passarão a vida dizendo que eu mudei, sem nunca saber que aquilo que chamam de mudança foi apenas o momento em que parei de morrer todos os dias para continuar sendo quem elas queriam.

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