Ainda
Hoje eu pensei em como seria fácil se existisse alguma forma de voltar. Não exatamente para mudar uma escolha, pedir desculpas para alguém ou impedir alguma coisa de acontecer, mas para chegar tão longe no passado que talvez eu pudesse descobrir em que momento comecei a me perder de mim mesmo. Engraçado pensar nisso porque, quando olho para trás, consigo enxergar meus erros com uma clareza que nunca tive enquanto estava cometendo cada um deles. Vejo pessoas que machuquei tentando me defender de coisas que nem estavam me atacando, vejo palavras que disse por medo de ser abandonado, silêncios que mantive porque não sabia explicar o que estava acontecendo aqui dentro e, no meio de tudo isso, vejo duas pessoas que continuaram tentando me amar mesmo quando eu já não sabia muito bem como receber amor. Pai, mãe… talvez eu nunca tenha conseguido agradecer direito. Talvez algumas coisas sejam difíceis demais para dizer olhando nos olhos. Por isso estou escrevendo. O papel não interrompe, não pergunta por que, não tenta consertar aquilo que nem eu consigo entender. Ele apenas fica. E ultimamente isso parece mais do que muita gente consegue fazer. Existem noites em que a casa inteira dorme e eu tenho a impressão de que alguma coisa dentro de mim continua acordada apenas para lembrar de tudo aquilo que eu gostaria de esquecer. Olho para a vida das outras pessoas e parece que todo mundo recebeu algum tipo de instrução que esqueceram de entregar para mim. Elas trabalham, conversam, fazem planos, riem de coisas pequenas, marcam alguma coisa para o fim de semana. Eu também faço isso às vezes. Acho que aprendi a parecer normal o suficiente. O problema começa quando ninguém está olhando. É quando algumas perguntas ficam altas demais. Onde exatamente eu deveria estar? O que faço com tudo aquilo que aconteceu? Quantas versões minhas ainda preciso abandonar até finalmente encontrar uma que eu consiga suportar? Talvez esse seja o pior tipo de cansaço: aquele que não melhora dormindo. Já pensei em desaparecer mais vezes do que gostaria de admitir. Não porque eu tenha certeza de querer morrer, mas porque às vezes parece impossível continuar carregando uma existência que eu ainda não aprendi a habitar. Existe uma diferença entre querer que a vida termine e querer desesperadamente que determinado jeito de viver termine, embora, quando a madrugada chega, as duas coisas possam parecer assustadoramente parecidas. Talvez por isso eu continue escrevendo. Porque ainda existe alguma coisa aqui dentro tentando separar uma coisa da outra. Uma força pequena, quase ridícula diante de tudo, mas presente. Às vezes imagino uma máquina capaz de voltar no tempo e fico pensando até onde eu iria. Ontem? Alguns anos? Infância? Antes de conhecer certas pessoas? Antes de algumas despedidas? Antes do primeiro medo que decidi esconder? Só que talvez nenhuma distância fosse suficiente, porque eu levaria comigo a mesma pessoa que está segurando a caneta agora. Talvez o passado não seja o único lugar do qual eu esteja tentando fugir. Houve pessoas que amei e machuquei. Houve pessoas que me amaram e não conseguiram perceber que algumas das minhas frases eram pedidos de ajuda disfarçados de brincadeira, irritação ou silêncio. Também não sei se posso culpá-las. Quantas vezes alguém precisa dizer que não está bem antes que deixemos de achar que é apenas um dia ruim? Quantas vezes alguém precisa desaparecer um pouco antes de percebermos que talvez estivesse esperando ser procurado? Eu não sei. Só sei que hoje escrevi tudo isso porque alguma parte de mim ainda queria ser encontrada. Talvez seja essa parte que esteja segurando minha mão enquanto escrevo. Talvez seja ela que me faça continuar até o fim desta página, mesmo sem saber o que haverá depois dela. Eu queria terminar dizendo que entendi alguma coisa, que amanhã vai ser diferente ou que finalmente descobri o motivo de estar aqui, mas seria mentira. Continuo sem respostas. Continuo cansado. Continuo carregando coisas que gostaria de deixar em algum lugar do passado. Só existe uma diferença pequena entre quem começou esta página e quem está terminando: por alguns minutos, em vez de desaparecer, eu escolhi escrever. E talvez eu ainda não saiba exatamente o que isso significa. Mas a página continua aqui. Eu também.




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