De Frente
Hoje eu faço 21 anos, e talvez uma das coisas mais estranhas sobre aniversários seja perceber que ninguém realmente vê o caminho que existe dentro de um número. Vinte e um parece pouco quando escrito. Dois algarismos. Uma idade que cabe em uma vela, em uma legenda, em uma pergunta simples de cadastro. “Quantos anos você tem?” A partir de hoje, 21. É fácil responder. Difícil seria explicar tudo o que precisou acontecer para que essa resposta existisse.
Durante muito tempo, eu imaginei que chegar a certas idades mudaria alguma coisa de maneira evidente. Aos 18, por exemplo, existe aquela sensação quase oficial de que uma porta se abriu. Você pode fazer algumas coisas que antes não podia, começa a ouvir mais vezes que precisa ser responsável, e por alguns dias talvez até acredite que a vida adulta tenha começado porque um documento confirmou. Mas os 18 passaram. Vieram os 19. Depois os 20. E nada aconteceu exatamente no instante em que o relógio mudou de um dia para o outro. Eu não acordei entendendo a vida. Não recebi nenhuma informação secreta reservada aos adultos. Continuei tendo dúvidas que eu achava que já deveria ter resolvido, medos que pareciam pertencer a alguém mais novo e perguntas que nenhuma idade soube responder.
Ainda assim, os 21 me incomodam de uma forma diferente.
Talvez porque agora esteja ficando difícil dizer que estou apenas começando.
Vinte anos ainda carregavam alguma desculpa. Era o início dos vinte, a primeira experiência com uma década nova, quase uma extensão confusa da adolescência. Aos 21, entretanto, alguma coisa parece mudar de lugar. Não necessariamente dentro de mim, mas no modo como o mundo começa a olhar. Aos poucos, deixam de perguntar apenas o que eu gosto e começam a perguntar o que eu vou fazer. O que pretendo construir. Onde quero chegar. Quanto já consegui. O que estou esperando. Existe uma idade em que as pessoas param de considerar suas dúvidas parte do crescimento e começam a tratá-las como atraso.
E isso é curioso para alguém que passou boa parte da vida sendo considerado atrasado antes mesmo de tentar.
Meus olhos tremem.
Eles sempre fizeram isso.
É um movimento horizontal, constante, impossível de esconder por muito tempo quando alguém olha diretamente para mim. Para muitas pessoas, olhar nos olhos é um gesto banal. Algumas defendem, inclusive, que você consegue descobrir muito sobre alguém olhando nos olhos dela. Confiança. Sinceridade. Interesse. Medo. Dizem que os olhos entregam.
Os meus costumam provocar perguntas.
Por isso, durante muito tempo, eu aprendi a não encarar.
Não necessariamente porque eu tivesse vergonha de conversar com alguém. Às vezes era mais simples evitar aquele pequeno intervalo que eu já conhecia bem: a pessoa percebe o movimento, continua olhando por alguns segundos tentando entender e, em algum momento, pergunta.
“Por que seu olho treme?”
Às vezes vem uma segunda pergunta.
“Não tem cirurgia?”
Ou:
“Não existe algum tratamento?”
Talvez exista alguma possibilidade que eu desconheça. Talvez a medicina ainda encontre caminhos que hoje eu nem imagino. Eu não sei. Durante boa parte da minha vida, porém, essa não foi uma pergunta médica. Era apenas mais um daqueles momentos em que eu precisava explicar uma característica minha antes de continuar sendo uma pessoa comum na conversa.
Existem explicações que cansam não porque sejam longas, mas porque precisamos dá-las vezes demais.
Depois de algum tempo, você começa a perceber quando alguém notou. Existe uma mudança pequena no rosto. Um segundo a mais de atenção. Às vezes curiosidade legítima. Às vezes desconforto. Às vezes aquela curiosidade que tenta parecer discreta e, justamente por tentar demais, se torna impossível de ignorar.
Então eu desviava.
Era mais fácil olhar para algum ponto próximo, para o rosto sem exatamente procurar os olhos, para qualquer lugar onde eu pudesse continuar presente sem sentir que alguma coisa em mim tinha acabado de entrar em análise.
Talvez por isso eu tenha uma relação tão estranha com a ideia de ser visto.
Porque enxergar pouco nunca significou apenas enxergar pouco.
Também significou descobrir cedo demais o quanto as pessoas acreditam no que veem.
Alguém percebe uma deficiência e, antes de conhecer suas habilidades, já começa a calcular suas limitações. Não precisa dizer em voz alta. Às vezes está na maneira de explicar alguma coisa devagar demais, como se dificuldade visual fosse dificuldade de compreender. Está na surpresa exagerada quando você consegue fazer algo que nunca disse que não conseguiria fazer. Está naquele cuidado que deixa de ser cuidado quando começa a decidir por você. Está na dúvida. Principalmente na dúvida.
Eu conheci muita gente que duvidou de mim antes de ter qualquer motivo para isso.
Algumas pessoas fizeram piada.
Outras fizeram pior: tiveram pena.
A piada machuca de uma forma bastante óbvia. A pena é mais silenciosa, porque costuma chegar disfarçada de bondade.
Durante a escola, houve momentos em que ser diferente parecia suficiente para transformar uma característica física em entretenimento. Crianças encontram aquilo que destoa muito rápido. Adolescentes também. Adultos, para ser justo, não desaprendem completamente. Mudam apenas a maneira de fazer.
Algumas coisas que ouvi ficaram.
Outras desapareceram junto com quem disse.
E existe algo estranho nisso também.
Ao longo desses 21 anos, passaram pela minha vida pessoas que um dia ocuparam tardes inteiras e hoje eu talvez não reconhecesse na rua. Pessoas que sabiam coisas sobre mim que hoje eu mesmo esqueço. Pessoas com quem conversei todos os dias durante meses e cujo nome agora preciso procurar em algum canto da memória. Algumas eu ainda lembro do nome, mas não do rosto. Outras lembro do rosto sem conseguir reconstruí-lo por inteiro. Existem vozes que eu provavelmente reconheceria antes de reconhecer a pessoa.
Talvez alguém também tenha me esquecido assim.
É desconfortável pensar nisso.
Em algum telefone antigo que já nem existe mais, talvez tenha havido mensagens minhas que pareciam importantes. Em alguma fotografia esquecida, talvez meu rosto esteja ao lado de alguém para quem hoje eu não significo absolutamente nada. Eu posso ter participado de uma lembrança que outra pessoa perdeu.
Aos 21, começo a perceber que crescer também é acumular desconhecidos que já foram conhecidos.
Essa talvez seja uma das primeiras coisas verdadeiramente melancólicas sobre ficar mais velho: não é apenas perceber que pessoas vão embora. É perceber que, às vezes, elas vão embora duas vezes.
Primeiro saem da nossa vida.
Depois saem da nossa memória.
Não existe despedida para a segunda partida.
Um dia apenas tentamos lembrar e não conseguimos.
Talvez eu devesse achar particularmente irônico falar sobre rostos que desapareceram da memória, considerando que nunca enxerguei rostos como a maioria das pessoas enxerga. Dependendo da distância, detalhes se perdem. Algumas coisas precisam estar mais próximas. Há características que outras pessoas percebem imediatamente e que para mim talvez precisem de tempo, contexto, aproximação.
Mas, depois de 21 anos, comecei a desconfiar de que todo mundo perde detalhes.
A diferença é que alguns chamam isso de visão.
Outros chamam de memória.
Talvez ninguém consiga enxergar uma pessoa inteira.
Nem mesmo quando está a poucos centímetros dela.
Eu mesmo passei anos sem conseguir enxergar algumas coisas em mim que estavam muito mais próximas do que qualquer rosto poderia estar.
Durante bastante tempo, por exemplo, eu não percebia quanto esforço gastava tentando não parecer limitado.
Existe uma diferença enorme entre querer ser capaz e sentir que você precisa provar capacidade o tempo inteiro.
Quando alguém espera pouco de você, realizar algo simples pode virar demonstração. Quando alguém duvida, qualquer erro parece perigoso porque deixa de ser apenas erro. Um erro qualquer pode ser interpretado como confirmação.
Se outra pessoa falha, ela falhou.
Quando você pertence a algum grupo que as pessoas já associam à limitação, às vezes existe o medo de que seu fracasso seja usado como explicação.
“Está vendo?”
Talvez ninguém diga essas palavras.
Mas você aprende a ouvi-las mesmo assim.
E isso entra na cabeça de um jeito difícil de explicar. Você começa a se cobrar antes que alguém cobre. Tenta antecipar perguntas. Evita pedir ajuda para não confirmar uma dependência que talvez ninguém estivesse sequer pensando. Quer realizar determinadas coisas sozinho não porque seja sempre necessário, mas porque existe alguma parte sua cansada de ser observada como uma possibilidade de fracasso.
Aos poucos, você pode acabar vivendo uma vida inteira diante de uma banca examinadora que nem sempre está presente.
Eu fiz isso algumas vezes.
Talvez ainda faça.
E não existe aniversário capaz de apagar isso.
Essa é outra mentira discreta que contamos sobre crescer. A ideia de que nossas versões anteriores ficam para trás em uma sequência organizada, como roupas infantis que já não servem mais.
Não foi assim comigo.
Aos 21, algumas inseguranças têm muito menos idade.
Certas situações ainda encontram o adolescente.
Determinados comentários talvez encontrem uma criança que aprendeu cedo demais que seus olhos podiam virar assunto antes que qualquer coisa que ela pensasse se tornasse interessante.
Ao mesmo tempo, existem partes minhas que parecem muito mais velhas do que 21.
Talvez dificuldades façam isso.
Não no sentido bonito que costumam colocar em frases sobre amadurecimento. Eu não gosto muito da necessidade de transformar tudo que machuca em presente. Algumas experiências me ensinaram coisas, claro. Mas isso não significa que eu precisava delas. O bullying não precisava existir para que eu desenvolvesse força. A dúvida dos outros não era uma etapa necessária para que eu aprendesse sobre capacidade. Eu poderia ter descoberto determinadas qualidades sem precisar defendê-las primeiro.
Existe uma mania estranha de admirar a força de alguém sem questionar por que ela precisou ser tão forte.
Talvez porque seja mais confortável elogiar quem sobreviveu do que imaginar como seria um mundo em que aquela sobrevivência não tivesse sido necessária.
Eu não quero olhar para os meus 21 anos como a história de alguém que “venceu apesar de tudo”.
Até porque eu nem sei o que significaria vencer.
Cheguei até aqui.
Isso é verdade.
Mas chegar não é a mesma coisa que resolver.
Ainda existem coisas que me atingem. Ainda existem situações em que penso duas vezes antes de olhar diretamente para alguém. Ainda existem perguntas sobre os meus olhos que não sei responder. Ainda existem coisas que gostaria de enxergar melhor. Ainda existem pessoas que talvez olhem para mim e imaginem uma incapacidade que nunca tiveram paciência para confirmar.
E ainda existe uma parte minha que gostaria de não se importar.
Talvez seja justamente isso que os 21 estejam me mostrando.
Ser adulto não é deixar de se importar.
É perceber que algumas coisas continuarão nos afetando mesmo depois que perdermos o direito de dizer que somos novos demais para saber lidar com elas.
Talvez por isso hoje eu não esteja pensando tanto no que conquistei.
Estou pensando no que atravessei.
Existe uma diferença.
Conquistas ficam bonitas em listas. Têm nomes, datas, resultados. O que atravessamos raramente recebe certificado.
Ninguém me entregou nada pelas vezes em que precisei fingir que um comentário não me atingiu.
Não existe medalha por aprender a encontrar maneiras diferentes de fazer algo que para outra pessoa é automático.
Não há fotografia oficial dos dias em que quase desisti de alguma coisa e, por alguma razão que nem sempre sei explicar, continuei.
Talvez as partes mais importantes de uma existência sejam justamente aquelas que não saberíamos colocar em um currículo.
Hoje completo 21 anos e não consigo contabilizar minha própria vida.
Posso contar os anos.
Não os acontecimentos.
Não sei quantas pessoas conheci.
Não sei quantas já esqueci.
Não sei quantas vezes duvidaram de mim.
Não sei quantas vezes duvidei junto.
Não sei quantas vezes meus olhos foram a primeira coisa que alguém percebeu.
Não sei quantas vezes evitei olhar para alguém justamente para impedir isso.
Não sei quantas coisas deixei de enxergar.
E, principalmente, não sei quantas coisas enxerguei que pessoas com uma visão muito melhor talvez nunca tenham percebido.
Esse pensamento me acompanha hoje.
Porque passei muito tempo entendendo visão como aquilo que me faltava.
Talvez por necessidade.
Quando você precisa chegar mais perto para ver alguma coisa, é difícil romantizar distância.
Mas existem outros tipos de distância que nenhum exame consegue medir.
Há pessoas que conseguem ler a menor letra de uma tabela e não percebem quando alguém ao lado está desconfortável.
Há quem consiga reconhecer um rosto do outro lado da rua e não reconheça o momento em que uma amizade começou a morrer.
Há pessoas que olham diretamente nos olhos e nunca realmente encontram quem está ali.
Eu não digo isso para inverter as coisas e fingir que enxergar pouco me concedeu algum conhecimento superior.
Não concedeu.
Só me fez desconfiar da palavra “ver”.
Talvez porque eu tenha ouvido durante toda a vida tantas pessoas tratarem visão como certeza.
“Eu vi.”
Como se ver encerrasse o assunto.
Mas alguém pode olhar para mim e ver meus olhos tremendo.
Isso é verdade.
Pode perceber que eu não enxergo como ela.
Também é verdade.
Pode até imaginar algumas dificuldades corretamente.
E ainda assim não terá visto quase nada.
Não viu as situações em que aquilo pesou.
Não viu as vezes em que deixou de pesar.
Não viu quem fez piada.
Não viu quem me ajudou sem me diminuir.
Não viu as pessoas que ficaram.
Nem as que foram embora.
Não viu os vinte anos anteriores.
Talvez ninguém veja.
Nem eu.
E talvez seja essa a parte mais estranha de fazer aniversário: passar um dia inteiro sendo lembrado de que estamos sendo vistos enquanto percebemos o quanto de nós permanece invisível.
As pessoas vão dizer “parabéns pelos 21”.
Algumas talvez escrevam mensagens bonitas.
Outras mandarão apenas duas palavras.
Haverá quem lembre por conta própria e quem seja lembrado por alguma rede social. Talvez alguém com quem eu não converso há muito tempo apareça por alguns minutos. Talvez uma pessoa que já foi importante não apareça.
Tudo isso cabe em um aniversário.
Presenças.
Ausências.
Nomes conhecidos.
Nomes quase esquecidos.
E, no centro, uma pessoa que teoricamente deveria estar comemorando ter ficado um ano mais velha enquanto tenta descobrir o que exatamente ficou para trás.
Porque ontem eu tinha 20.
A diferença parece ridícula.
Vinte e quatro horas não deveriam ser capazes de transformar ninguém em adulto.
Mesmo assim, existe um peso simbólico que não consigo ignorar.
Vinte e um.
Talvez esta seja a primeira idade em que eu não esteja esperando que o próximo número resolva alguma coisa.
Quando eu era mais novo, sempre existia um “quando”.
Quando eu crescer.
Quando fizer 18.
Quando terminar isso.
Quando conseguir aquilo.
Quando as pessoas me levarem a sério.
Quando eu tiver liberdade.
Quando eu me sentir preparado.
O problema dos 21 é que alguns desses “quandos” já chegaram.
E eu descobri uma coisa bastante inconveniente:
eu vim junto.
Com as mesmas perguntas.
Com algumas inseguranças antigas.
Com outras completamente novas.
Com meus olhos ainda tremendo exatamente como antes.
Talvez eu esperasse que crescer significasse finalmente olhar para frente e enxergar com clareza.
Não aconteceu.
O futuro continua tão difícil de focalizar quanto sempre foi.
Só que agora existe uma diferença.
Durante muito tempo, achei que não enxergá-lo era um defeito meu.
Hoje não tenho tanta certeza.
Talvez ninguém esteja vendo.
Talvez as pessoas apenas estejam caminhando com níveis diferentes de confiança dentro da mesma falta de nitidez.
Algumas fingem melhor.
Algumas planejam.
Algumas têm certezas.
Algumas respondem rapidamente quando perguntam onde estarão daqui a cinco anos.
Eu admiro.
Não consigo.
Tenho 21 anos e não sei exatamente quem estarei sendo aos 22.
Isso me assusta um pouco.
Também existe alguma honestidade nisso.
Talvez amanhã eu conheça alguém que fará parte da minha vida durante anos.
Talvez eu já conheça alguém que, daqui a algum tempo, não conseguirei lembrar direito.
Talvez existam pessoas que hoje considero permanentes e que um dia serão apenas um nome antigo.
Talvez alguém que hoje mal conheço esteja presente em uma versão futura de mim que ainda não consigo imaginar.
Talvez eu abandone certezas que hoje parecem fundamentais.
Talvez mantenha medos que juro que vou superar.
Talvez aprenda finalmente a olhar mais nos olhos das pessoas.
Ou talvez apenas aprenda que não devo meus olhos a ninguém.
Não sei.
E, pela primeira vez, talvez eu não queira transformar esse desconhecimento imediatamente em uma resposta.
Passei anos tendo pessoas olhando para mim e perguntando o que havia de errado com meus olhos.
Hoje, aos 21, existe uma pergunta que me parece muito mais difícil.
O que exatamente deveria estar certo?
Quem decidiu qual movimento um olho deveria fazer para não provocar estranhamento?
Quem decidiu em que idade alguém deveria estar preparado?
Quem decidiu que aos 21 deveríamos saber onde estamos indo?
Quem decidiu que enxergar significa compreender?
Talvez eu tenha chegado a uma idade em que algumas perguntas antigas simplesmente trocaram de direção.
Durante muito tempo eu pensava:
“Por que meus olhos são assim?”
Hoje penso um pouco mais:
“Por que isso incomoda tanto quem olha?”
São perguntas muito diferentes.
Uma tenta encontrar defeito em mim.
A outra observa o mundo de volta.
Talvez crescer tenha alguma coisa a ver com isso.
Não encontrar todas as respostas.
Apenas descobrir que algumas perguntas foram feitas para a pessoa errada.
Hoje eu faço 21 anos.
Não sei se isso significa que virei adulto.
Não sei se existe um instante em que alguém realmente vira.
Talvez daqui a dez anos eu olhe para a pessoa que escreveu isso e ache quase engraçado que ela se considerasse tão crescida.
Espero que sim.
Também espero sentir um pouco de falta dela.
Porque existe uma crueldade silenciosa em desejar tanto mudar e esquecer que, quando conseguirmos, a pessoa que queria essa mudança já não estará exatamente aqui para vê-la.
Amanhã continuarei tendo 21.
Depois de amanhã também.
O número rapidamente ficará comum.
Essa talvez seja a coisa mais triste dos aniversários.
Passamos anos chegando a uma idade que, poucos dias depois, deixa de parecer chegada.
Vinte e um vai virar resposta automática.
Depois rotina.
Depois lembrança.
Algum dia alguém vai me perguntar minha idade e o número 21 parecerá absurdamente distante.
Talvez eu tente lembrar deste dia.
Talvez lembre do que fiz.
Talvez das pessoas que estavam comigo.
Talvez esqueça quase tudo.
Não sei se vou lembrar deste texto.
Não sei se vou reconhecer quem eu era enquanto escrevia.
Mas gosto de imaginar que alguma coisa permanecerá.
Não necessariamente uma lição.
Não quero sair dos meus 20 anos com uma moral pronta.
Quero apenas reconhecer que eles existiram.
Que eu existi neles.
Cometi erros neles.
Conheci pessoas.
Perdi algumas.
Esqueci outras.
Fui esquecido por alguém, provavelmente.
Tive medo.
Fiz coisas mesmo com medo.
Ouvi pessoas duvidarem.
Em alguns momentos, acreditei nelas.
Em outros, não.
Olhei para o chão quando queria olhar para alguém.
Desviei os olhos para evitar uma pergunta que eu já estava cansado de responder.
E continuei enxergando o mundo da única forma que eu conheço.
Talvez seja pouco.
Talvez seja uma vida inteira.
Daqui a algum tempo, meus 21 também terminarão.
Outro número ocupará seu lugar, como aconteceu com todos os anteriores.
E existe uma parte de mim que já sente falta de algo que ainda nem acabou.
Isso parece absurdo.
Mas talvez envelhecer comece exat




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