Canoa em Silêncio
Andei tanto tentando acender uma luz que nem eu sabia se ainda existia dentro de mim, como alguém que rema no escuro acreditando que o mar vai, em algum momento, responder de volta, e no meio desse caminho eu fui rabiscando minhas próprias cicatrizes como quem escreve com caneta porque já entendeu que apagar não é mais uma opção — cada erro agora é definitivo, cada dor virou tinta permanente na pele da alma — e talvez seja por isso que eu já não odeio mais como antes, não por ter aprendido a amar tudo, mas porque o peso de carregar ódio começou a afundar mais do que qualquer correnteza jamais conseguiu; então eu joguei fora o que dava, ou pelo menos o que parecia possível abandonar, mesmo sabendo que algumas coisas não vão embora, só se escondem em silêncio, esperando a próxima noite mais longa para voltar a respirar dentro do peito, e ainda assim eu sigo, com essa canoa frágil feita de fé improvisada, deslizando devagar por um mar que nunca promete calmaria, mas que, de alguma forma, também não invade o pouco que ainda chamo de lar, porque aprendi que lar não é ausência de tempestade, é resistência em meio a ela; e no meio disso tudo, percebi que fugir da escuridão nunca foi sobre encontrar luz lá fora, mas sobre parar de apagar a pouca luz que ainda restava aqui dentro, porque no fim, a gente não atravessa o mar — a gente se atravessa, remando entre traumas, lembranças e silêncios, tentando transformar cada dor em lição, cada queda em direção, mesmo quando tudo parece novo demais, pesado demais, e ao mesmo tempo vazio demais, como se viver fosse essa contradição constante entre afundar e continuar remando, porque parar… nunca foi uma opção real.




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