Regra da casa
Crescer talvez seja perceber que mudar não significa necessariamente deixar para trás tudo aquilo que um dia fomos, porque algumas coisas aprendemos cedo demais para simplesmente desaprender quando descobrimos que nos fazem mal. Carregamos hábitos que jurávamos nunca ter, repetimos comportamentos que costumávamos criticar e, em certos momentos, nos tornamos justamente a pessoa que uma versão mais nova de nós provavelmente questionaria. Há certa hipocrisia nisso, mas talvez exista também algo profundamente humano: é muito mais fácil imaginar quem queremos ser do que perceber, enquanto os dias passam, quem estamos nos tornando. Ainda assim, continuamos tentando. Tentamos abandonar alguns vícios, entender nossas contradições, aprender alguma coisa nova, encontrar um lugar onde aquilo que pensamos tenha tanto valor quanto aquilo que conseguimos entregar, embora nem sempre seja assim. Muitas vezes somos lembrados pelo que fazemos, procurados pelo que oferecemos e reconhecidos pelo que produzimos, enquanto partes inteiras de quem somos permanecem esperando alguém interessado o suficiente para perguntar. Talvez por isso algumas pessoas passem tanto tempo tentando provar que merecem estar onde chegaram, como se toda conquista pudesse ser descoberta a qualquer instante como um engano e fosse necessário fazer sempre mais para justificar a própria presença. O curioso é que, enquanto tentamos nos adaptar ao mundo, também desejamos mudá-lo, mesmo sabendo que ele já estava aqui muito antes de nós e provavelmente continuará depois. Talvez amadurecer seja conviver com essa aparente impossibilidade: reconhecer tudo aquilo que dificilmente conseguiremos transformar sem permitir que isso decida quem podemos nos tornar. Porque talvez nunca chegue o dia em que estaremos completamente livres das versões que fomos, das escolhas ruins, das inseguranças ou das coisas que ainda tentamos abandonar. Talvez exista apenas essa tentativa silenciosa de chegar um pouco mais perto da pessoa que imaginamos ser, enquanto o dia nasce outra vez e ainda estamos aprendendo a chegar.




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