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Reflexões e Inspirações 

Casca

há 2 dias
5 min de leitura

Há pessoas que aprendem a suportar tanto que, em algum momento, deixam de perceber o peso daquilo que carregam. Não porque tenham encontrado uma maneira de superar tudo o que lhes aconteceu, mas porque passaram tempo demais tentando permanecer de pé enquanto alguma coisa dentro delas desmoronava. No começo, ainda existe a vontade de explicar, de pedir ajuda, de encontrar alguém que compreenda o que está acontecendo, mas as palavras começam a parecer insuficientes quando precisam descrever sentimentos que nem nós mesmos conseguimos entender. Então aprendemos a ficar em silêncio. Guardamos uma decepção, ignoramos outra, fingimos não perceber determinadas ausências e, aos poucos, construímos uma espécie de proteção ao redor de tudo aquilo que ainda pode ser machucado. É curioso como esse processo quase nunca parece uma escolha. Ninguém acorda determinado a se tornar indiferente ao mundo. Geralmente, começa com pequenas tentativas de evitar que alguma coisa volte a acontecer, até que um dia percebemos que já não reagimos da mesma maneira às coisas que antes nos faziam sorrir, chorar ou simplesmente sentir alguma coisa. Talvez seja esse um dos aspectos mais estranhos do amadurecimento: nem toda mudança que nos torna mais resistentes nos torna necessariamente melhores. Algumas apenas nos ensinam a conviver com aquilo que nunca deveria ter se tornado comum. E, quando finalmente conseguimos atravessar situações que antes pareciam insuportáveis, recebemos elogios pela força que demonstramos, como se ninguém percebesse que parte dela nasceu justamente da impossibilidade de sermos frágeis. Existe algo profundamente solitário em ser reconhecido pela capacidade de suportar, porque quanto mais acreditam que conseguimos aguentar, menos parecem considerar a possibilidade de que também precisamos descansar. Tornamo-nos aqueles que resolvem, que compreendem, que permanecem, que encontram alguma maneira de continuar mesmo quando tudo parece ter perdido o sentido. E continuamos. Não necessariamente porque sabemos para onde estamos indo, mas porque parar exigiria olhar com atenção para tudo aquilo que deixamos acumulado pelo caminho. Talvez por isso seja tão difícil revisitar certas lembranças. Algumas permanecem intactas, outras mudam de significado conforme envelhecemos, e existem aquelas que acreditávamos ter esquecido até reconhecermos seus efeitos em comportamentos que nunca conseguimos explicar. O passado possui essa maneira estranha de continuar existindo sem precisar ser lembrado. Ele aparece na dificuldade de confiar, no desconforto diante de um elogio, na necessidade de antecipar problemas, no medo de depender de alguém ou na incapacidade de aproveitar um momento tranquilo sem imaginar quanto tempo falta para que alguma coisa dê errado. Aos poucos, começamos a confundir tranquilidade com ausência de sentimentos, como se estar bem significasse não ser atingido por absolutamente nada. Mas existe uma diferença enorme entre encontrar paz e simplesmente deixar de reagir. Uma pessoa pode atravessar o dia inteiro sem demonstrar tristeza e ainda assim estar distante de qualquer felicidade. Pode conversar, trabalhar, cumprir compromissos, responder mensagens e manter uma rotina aparentemente normal enquanto sente que está apenas observando a própria existência acontecer. Talvez o vazio mais difícil de reconhecer seja justamente aquele que não interrompe a vida. Ele permite que tudo continue funcionando, mesmo quando já não conseguimos encontrar muito significado no que fazemos. E então surge uma contradição ainda mais desconfortável: passamos anos construindo uma proteção para impedir que o mundo nos machuque, mas raramente percebemos o momento em que essa mesma proteção começa a impedir que alguma coisa boa consiga nos alcançar. Evitamos expectativas para não conhecer novas decepções, recusamos proximidades para não enfrentar despedidas e aprendemos a desconfiar da felicidade porque ela parece sempre anunciar a possibilidade de uma perda. A casca funciona. Talvez funcione até bem demais. O problema é que aquilo que impede a entrada da dor também pode dificultar a chegada do afeto, da surpresa e de todas aquelas pequenas experiências que tornam a existência diferente de uma simples sucessão de dias. E não há nada particularmente bonito nisso. Existe apenas alguém tentando se proteger com os recursos que encontrou, mesmo que alguns deles tenham deixado de fazer sentido há muito tempo. Talvez o mais triste seja perceber que, depois de tanto esforço para não voltar a ser quem éramos, podemos acabar sentindo falta justamente daquela pessoa que ainda conseguia se entusiasmar com coisas pequenas, confiar sem calcular todas as consequências e imaginar o futuro sem tratá-lo como uma ameaça. Não porque aquela versão fosse mais sábia, mas porque desconhecia o peso de certas experiências. Entretanto, seria injusto acreditar que tudo aquilo que aconteceu serviu apenas para nos destruir. Algumas perdas realmente modificam nossa maneira de enxergar o mundo, algumas dificuldades revelam capacidades que desconhecíamos e certas experiências nos obrigam a abandonar ilusões que já não poderiam continuar existindo. O problema talvez comece quando transformamos a sobrevivência em nossa única identidade, quando já não sabemos quem somos além daquilo que conseguimos suportar. Afinal, o que permanece de uma pessoa quando todas as suas decisões passam a ser tomadas para evitar que ela sofra novamente? Até que ponto ainda estamos escolhendo nossos caminhos, e não apenas fugindo daqueles que nos lembram alguma coisa? Talvez não exista uma resposta simples, porque abandonar uma proteção também significa reconhecer a vulnerabilidade que nos levou a construí-la. E ninguém deveria precisar destruir de uma vez aquilo que levou anos para aprender a carregar. Ainda assim, existe algo inquietante na possibilidade de atravessarmos uma vida inteira acreditando que estamos nos preservando, quando, na verdade, apenas aprendemos a permanecer distantes de nós mesmos. Talvez seja por isso que algumas pessoas continuem procurando alguma coisa mesmo depois de perderem a capacidade de explicar o que desejam encontrar. Caminham por lugares conhecidos que já não parecem os mesmos, reencontram pessoas que pertencem a versões antigas de suas histórias e tentam reconhecer, entre tantas mudanças, algum vestígio daquilo que um dia chamaram de lar. Mas nem sempre é possível voltar. Existem lugares que desaparecem sem serem demolidos, relações que terminam muito antes da despedida e partes de nós que continuam pertencendo a momentos que já não existem. Resta aprender a conviver com essas ausências sem permitir que elas ocupem todos os espaços disponíveis. Talvez seja isso que torne a existência tão difícil de compreender: somos capazes de continuar mesmo depois de perder coisas que acreditávamos indispensáveis, mas essa capacidade não significa que saímos inteiros de tudo o que enfrentamos. Às vezes, continuar é apenas o que conseguimos fazer. E talvez não haja problema em reconhecer isso, desde que não confundamos a necessidade de resistir com a obrigação de nunca mais sentir. Porque, em algum momento, até mesmo aquilo que construímos para nos proteger pode começar a pesar. E talvez a parte mais difícil de encontrar o caminho de volta não seja atravessar novamente as ruínas, mas descobrir se ainda existe, debaixo de tudo aquilo que aprendemos a suportar, alguém esperando para ser encontrado.

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