top of page

Reflexões e Inspirações 

Asas

5 de out.
3 min de leitura

Talvez o maior erro de Ícaro não tenha sido voar perto demais do Sol. Talvez tenha sido acreditar que, depois de ganhar asas, ainda conseguiria distinguir liberdade de altura. Há alguma coisa estranhamente familiar nessa história quando olhamos para um país em época de eleição, porque de tempos em tempos escolhemos alguém para subir por nós, entregamos nossas esperanças, nossos medos, nossa raiva e até parte da nossa capacidade de duvidar, então apontamos para o céu e esperamos que aquela pessoa faça o que milhões de pessoas, instituições, gerações e interesses nunca conseguiram fazer juntas. Queremos um presidente que salve. Um juiz que resolva. Um candidato que destrua tudo aquilo que consideramos errado. Um lado que finalmente derrote o outro. E talvez seja justamente aí que a política deixe de ser política e comece a se parecer perigosamente com fé. Não importa tanto qual seja o nome estampado na bandeira quando começamos a acreditar que algumas perguntas não podem mais ser feitas, que certas críticas significam traição, que toda decisão do nosso lado possui uma justificativa e toda decisão do outro esconde uma conspiração. Aos poucos, pessoas deixam de discutir ideias e passam a proteger personagens. Pais brigam com filhos, amigos desaparecem de mesas, desconhecidos se odeiam por números apertados em uma urna, enquanto aqueles que disputam o poder continuam fazendo aquilo que o poder sempre soube fazer muito bem: sobreviver a quem acredita possuí-lo. Talvez por isso seja tão desconfortável perceber que uma democracia não se torna saudável apenas porque houve eleição. Votar é indispensável, mas não encerra nossa responsabilidade; deveria inaugurá-la. Quem vence ainda precisa ser questionado. Quem perde não deixa de possuir direitos. Quem governa não deveria estar acima da crítica, e quem julga também não deveria estar acima das perguntas. Nenhuma autoridade se torna menos perigosa porque concordamos com ela. Nenhum abuso se torna aceitável porque atingiu primeiro alguém de quem não gostamos. É fácil defender liberdade quando a voz interrompida é a nossa; difícil é perceber seu valor quando quem fala diz justamente aquilo que gostaríamos de não ouvir. É fácil exigir investigação quando o investigado veste a cor adversária; mais difícil é manter o mesmo rigor quando o nome aparece no nosso próprio lado. Talvez essa seja uma das tragédias silenciosas de um país dividido: começamos querendo justiça e, sem perceber, passamos a desejar apenas que a força esteja nas mãos certas. Mas força não conhece mãos certas por muito tempo. Governos passam. Presidentes passam. Ministros passam. Partidos mudam de discurso, antigos inimigos apertam as mãos, aliados se tornam inconvenientes, certezas envelhecem e multidões que ontem gritavam um nome amanhã podem jurar que nunca acreditaram tanto nele. O poder permanece. E cada ferramenta que aceitamos quando utilizada contra alguém poderá continuar existindo quando alguém decidir utilizá-la contra nós. Talvez por isso seja insuficiente perguntar quem salvará o Brasil. Essa pergunta já produziu heróis demais, mártires demais e decepções demais. Talvez devêssemos perguntar até onde estamos dispostos a permitir que alguém vá apenas porque acreditamos que está indo na nossa direção. Porque um país não demonstra sua força quando encontra um homem suficientemente poderoso para carregá-lo nas costas; talvez demonstre justamente quando nenhum homem consegue se tornar maior do que aquilo que deveria limitar seu poder. Ainda assim, eleição após eleição, levantamos os olhos. Procuramos outro nome, outra promessa, outra voz suficientemente convincente para assegurar que desta vez será diferente. Alguns juram que o país está sendo salvo. Outros juram que ele está sendo destruído. Uns enxergam perseguidos onde outros enxergam culpados; uns chamam de proteção aquilo que outros chamam de censura; uns encontram justiça exatamente onde outros reconhecem abuso. E no meio desse barulho existe um povo tentando trabalhar, pagar contas, criar filhos, compreender notícias contraditórias e descobrir em quem ainda é possível acreditar. Talvez seja esse povo que quase nunca aparece quando contamos a história dos grandes homens. Ele permanece embaixo enquanto os escolhidos disputam o céu. Paga pelas asas. Assiste ao voo. Sente o calor. Recolhe aquilo que cai. E quando finalmente chega outra eleição, recebe novamente a mesma pergunta embrulhada em novas cores: quem deve voar agora? Talvez Ícaro ainda esteja caindo. Talvez sempre tenha estado. Não porque exista um único Sol, um único culpado ou um único lado responsável por tudo aquilo que nos trouxe até aqui, mas porque continuamos fascinados demais por quem alcança o alto e atentos de menos ao que acontece quando alguém chega lá. No fim, talvez o perigo nunca tenha sido escolher a pessoa errada para usar as asas. Talvez tenha sido continuar procurando alguém a quem entregá-las.

Posts recentes

Ver tudo

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page