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Reflexões e Inspirações 

De novo

11 de set.
3 min de leitura

Acorda. Desliga o alarme. Cinco minutos. Só mais cinco. Acorda de verdade. Olha a hora. Levanta rápido porque agora já está atrasado. Banheiro, roupa, café, celular, chave, rua. Vai. Faz o que precisa fazer. Responde quem precisa responder. Ri quando alguém faz uma piada. Diz que está cansado. Alguém também diz. Normal. Todo mundo está. Continua. Volta. Banho, alguma coisa para comer, alguma coisa para assistir enquanto olha outra coisa no celular, pensamentos sobre amanhã, pensamentos sobre dinheiro, pensamentos sobre problemas que ontem também estavam ali. Dorme. Acorda. Desliga o alarme. Cinco minutos. Só mais cinco. E talvez seja estranho perceber que conseguimos decorar tão bem os nossos dias a ponto de quase não precisar estar presentes neles. O corpo já sabe o caminho. A mão sabe onde fica o interruptor no escuro, os pés reconhecem a rua, os dedos abrem os mesmos aplicativos, a boca responde “tudo bem” antes mesmo de consultarmos aquilo que existe por dentro. Vai. Faz. Resolve. Continua. A semana passa e alguém pergunta o que aconteceu nos últimos dias. Nada demais. Trabalhei. Estudei. Fiquei em casa. Saí um pouco. Nada demais. Curioso como tantas horas podem caber em duas palavras. Nada demais. Foram manhãs inteiras, tardes que nunca mais existirão, noites que poderiam guardar alguma lembrança, pessoas atravessando nosso caminho pela única vez, músicas tocando enquanto pensávamos em outra coisa, céus que provavelmente estavam bonitos e nem vimos porque estávamos olhando para baixo. Mas nada demais. Segunda. Terça. Quarta. Quinta. Sexta. Finalmente sexta. Finalmente sábado. Domingo à noite. Merda, amanhã é segunda. Acorda. Desliga o alarme. Cinco minutos. Só mais cinco. Talvez viver no automático tenha uma vantagem que ninguém comenta: ele poupa perguntas. Enquanto existe alguma coisa para fazer, não precisamos pensar muito sobre para onde estamos indo. O próximo compromisso responde por nós. O próximo boleto. A próxima aula. A próxima entrega. O próximo mês. Depois eu vejo isso. Depois penso melhor. Depois descanso. Depois faço alguma coisa diferente. Depois. Depois. Depois. E o depois possui uma habilidade impressionante de continuar existindo sem nunca precisar chegar. Enquanto isso a gente vai ficando bom em sobreviver às semanas. Bom mesmo. Aprende a funcionar cansado, conversar distraído, sorrir preocupado, descansar pensando no trabalho e trabalhar pensando no descanso. Aprende até a chamar exaustão de rotina, vazio de fase, ausência de maturidade. Porque parar parece perigoso. No silêncio talvez apareça alguma pergunta inconveniente, dessas que não cabem na agenda: era isso que eu queria? Ainda gosto das coisas que estou fazendo? Quando foi a última vez que alguma coisa me deixou realmente animado? Quando foi a última vez que fiz algo sem pensar se seria útil, produtivo, necessário ou publicável? Melhor não pensar muito. Amanhã tem coisa para fazer. Acorda. Desliga o alarme. Cinco minutos. Só mais cinco. Mas, de vez em quando, alguma coisa falha nesse sistema perfeitamente repetido. Uma música toca e lembra uma versão sua que parecia sentir tudo com mais intensidade. Uma fotografia antiga mostra alguém com o seu rosto, mas com planos que você quase não reconhece. Uma conversa termina e você permanece alguns segundos olhando para lugar nenhum. Ou então não acontece absolutamente nada. Você apenas está sentado em algum lugar, cansado demais para continuar se distraindo, e percebe que os dias não estão esperando você voltar a prestar atenção. Eles continuam. Essa talvez seja a parte assustadora. A vida não interrompe o relógio quando entramos no automático. Ela não manda uma notificação dizendo “você não estava presente nos últimos três meses, deseja tentar novamente?”. Ela simplesmente passa. Silenciosa. Educada. Um dia depois do outro. E não sei se sair disso significa largar tudo, viajar para longe, mudar de cidade ou transformar cada manhã em uma experiência extraordinária. Talvez essa também seja apenas outra fantasia. Talvez ninguém consiga estar completamente presente o tempo inteiro. Existem contas. Existe cansaço. Existem obrigações que continuarão sendo obrigações mesmo depois da maior reflexão existencial do mundo. Só que talvez exista uma diferença entre possuir uma rotina e desaparecer dentro dela. Entre repetir algumas coisas e repetir a si mesmo. Entre descansar e apenas desligar até o próximo alarme. Amanhã provavelmente ele vai tocar de novo. A mão provavelmente vai procurar o celular. O quarto será o mesmo, alguns problemas ainda estarão esperando e o dia talvez não ofereça nenhuma grande revelação. Acorda. Desliga o alarme. Cinco minutos. Só mais cinco. Mas talvez, em algum desses dias aparentemente iguais, antes de levantar e começar tudo outra vez, você perceba uma coisa estranha: não existe botão para repetir ontem. A gente apenas chama de rotina porque os dias se parecem. Nenhum deles volta.

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