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Reflexões e Inspirações 

Ela foi embora

4 de ago.
2 min de leitura

É estranho como a vida consegue mudar sem fazer barulho. Um dia você apenas acorda mais cedo do que gostaria, olha o relógio antes mesmo de abrir completamente os olhos e já começa a calcular horários, contas, compromissos e tudo aquilo que precisa ser resolvido antes que o dia termine. Quase não sobra espaço para perguntar se você realmente queria estar fazendo tudo isso. Afinal, as contas continuam chegando, o aluguel não espera, o mercado parece ficar mais caro a cada mês, trabalhar deixou de ser uma escolha para se tornar uma necessidade constante, e, para muitos, quando o expediente acaba ainda existe uma faculdade esperando, sustentada pela esperança de que talvez, no futuro, o esforço de hoje finalmente faça algum sentido.

Dizem que crescer significa conquistar liberdade, mas raramente contam quanto custa mantê-la. Parece que tudo ficou mais distante. Comprar uma casa virou um sonho que se afasta conforme caminhamos. Ter estabilidade virou privilégio. Construir uma família exige cálculos que antes pareciam desnecessários. Trabalhamos mais, descansamos menos e, mesmo assim, a sensação é de estar sempre correndo atrás de alguma coisa que nunca alcançamos. Como se o mundo inteiro estivesse acelerando enquanto nós tentamos apenas não ficar para trás.

Talvez seja por isso que algumas madrugadas se tornem tão longas. Não porque exista algo para fazer, mas porque finalmente sobra silêncio suficiente para perceber o quanto estamos cansados. E, nesse silêncio, às vezes sentimos falta de alguém que nem sabemos explicar direito. Não era uma pessoa que prometia resolver nossos problemas. Era apenas alguém que fazia tudo parecer mais simples. Alguém que transformava uma tarde comum em uma aventura, que fazia o tempo passar devagar, que não conhecia boletos, metas, crises ou a ansiedade de pensar no mês seguinte. Durante muito tempo achei que ela estivesse apenas distante, que um dia voltaria quando a vida desacelerasse. Mas a vida nunca desacelerou.

O mais curioso é que ela nunca foi embora de uma vez. Foi desaparecendo aos poucos. Em cada responsabilidade nova, em cada preocupação que substituiu um sonho simples, em cada momento em que deixamos de olhar para o céu porque estávamos ocupados demais olhando para o relógio. E talvez tenha sido justamente por isso que demoramos tanto para sentir sua falta. Algumas ausências só doem quando percebemos que já não lembramos exatamente como era viver ao lado delas.

Hoje entendemos muito mais sobre o mundo. Sabemos como funcionam os impostos, a política, as dificuldades do trabalho, o peso das escolhas e o valor das coisas. Mas, às vezes, parece que quanto mais aprendemos sobre sobreviver, menos lembramos como era simplesmente viver.

E talvez a maior de todas as saudades seja justamente essa. A de alguém que esteve ao nosso lado durante os primeiros capítulos da vida, foi embora sem avisar e nunca mais voltou. Só muito tempo depois descobrimos o nome dela.

Infância.

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