Desconexão
Talvez a pior sensação que exista não seja a tristeza, nem a raiva, nem mesmo a solidão. Talvez seja olhar para dentro de si e não encontrar mais ninguém. É perceber que, aos poucos, você foi se tornando tantas versões diferentes para tantas pessoas diferentes que a sua própria versão original acabou perdida em algum lugar do caminho. Com alguns você é extrovertido, sorri, faz piadas e parece carregar uma energia inesgotável; com outros você se fecha, responde pouco, evita contato e prefere o silêncio. Com algumas pessoas você fala sem parar, despeja pensamentos, sonhos e medos; com outras, cada palavra parece pesada demais para sair da boca. E então surge a pergunta que assombra durante as madrugadas silenciosas: qual dessas pessoas sou eu? Ou pior... será que alguma delas sou realmente eu? Porque chega um momento em que você percebe que passou tanto tempo se adaptando às expectativas dos outros que esqueceu quais eram as suas próprias. As pessoas gostam de certas partes de você, então você as alimenta. Elas criticam outras partes, então você as esconde. Elas elogiam um comportamento, então você o repete. Elas desaprovam um sonho, então você o abandona. E assim, sem perceber, cada opinião arranca um pequeno pedaço da sua identidade, até que o reflexo no espelho continua sendo o mesmo rosto, mas já não parece mais a mesma pessoa. Você gostava de desenhar, mas disseram que era perda de tempo. Gostava de escrever, mas ninguém parecia se importar. Gostava de cantar, criar, imaginar, explorar, sonhar, mas pouco a pouco foi guardando tudo dentro de gavetas que nunca mais foram abertas. Não porque deixou de amar essas coisas, mas porque aprendeu que era mais fácil deixá-las morrer do que continuar ouvindo que elas não tinham valor. E então os dias começaram a ficar iguais. Aquilo que antes fazia seu coração acelerar virou apenas mais uma atividade vazia. Aquilo que antes fazia seus olhos brilharem agora parece distante, como uma lembrança pertencente a outra pessoa. Você continua existindo, continua acordando, continua conversando, trabalhando, estudando e sorrindo quando necessário, mas existe uma diferença entre viver e apenas continuar funcionando. E às vezes você sente que está apenas funcionando. Como uma máquina programada para agradar, para corresponder, para atender expectativas que nunca escolheu carregar. O problema é que ninguém percebe. Porque por fora você ainda parece normal. Ainda responde mensagens, ainda participa das conversas, ainda ri quando todos estão rindo. Mas por dentro existe um vazio silencioso crescendo como uma sombra. Um vazio que não grita, não faz escândalo, não pede ajuda. Ele apenas aumenta. Lentamente. Dia após dia. Roubando pequenas partes de quem você era. E o mais assustador é que você começa a esquecer. Esquecer seus sonhos. Esquecer seus gostos. Esquecer suas vontades. Esquecer sua essência. Como um livro antigo cujas palavras desaparecem um pouco mais a cada ano. E então surge aquela sensação estranha de estar cercado por pessoas e, ainda assim, sentir-se completamente sozinho. Porque elas conhecem as versões que você criou para elas, mas talvez nenhuma conheça quem realmente existe por trás de todas essas máscaras. Talvez nem você conheça mais. Existem momentos em que parece que há dezenas de pessoas vivendo dentro do mesmo corpo, todas puxando em direções diferentes. A criança que ainda quer sonhar. O adulto cansado que só quer descansar. A pessoa que deseja ser aceita. A que deseja fugir de tudo. A que quer gritar. A que não consegue mais falar. E todas elas coexistem em um conflito silencioso, enquanto o mundo continua exigindo respostas que você já não sabe dar. Aos poucos, a corda que o ligava a si mesmo vai ficando mais fina. Mais desgastada. Mais frágil. Você sente isso quando algo que antes amava já não provoca emoção alguma. Quando uma memória feliz parece pertencer a um estranho. Quando os dias passam rápido demais e, ainda assim, parecem não levar você a lugar nenhum. É como estar à deriva em um oceano escuro, vendo a costa desaparecer atrás da neblina sem conseguir remar de volta. E existe um medo terrível escondido nisso tudo. O medo de que um dia essa corda finalmente se rompa. O medo de acordar e não reconhecer mais os próprios pensamentos. O medo de perceber que viveu tanto para atender às expectativas alheias que nunca teve a oportunidade de descobrir quem realmente era. Porque talvez a maior tragédia não seja perder alguém que amamos. Talvez seja perder a nós mesmos enquanto tentávamos ser aquilo que os outros queriam encontrar. E quando isso acontece, sobra apenas o silêncio. Um silêncio pesado, profundo e interminável. Como se a alma estivesse sentada sozinha em um quarto vazio, cercada pelos restos de todas as versões que já foi um dia. Esperando. Não por alguém que venha salvá-la. Mas por uma chance de se reencontrar antes que seus pés deixem de tocar o chão para sempre.




Comentários