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Reflexões e Inspirações 

Meu sorriso

14 de set.
7 min de leitura

Talvez uma das maneiras mais eficientes de esconder que alguma coisa não está bem seja aprender a sorrir exatamente na hora em que alguém poderia perceber, porque depois de algum tempo a gente descobre que um sorriso convence mais rápido do que qualquer explicação e exige muito menos coragem do que admitir que existem dias em que até levantar, fazer café e encarar o próprio reflexo parece uma discussão que começou antes de a manhã chegar. O espelho, nesses dias, não serve apenas para mostrar o rosto; ele devolve aquele rival silencioso que conhece todas as perguntas que evitamos durante o resto do dia, sabe onde escondemos as inseguranças, reconhece o cansaço por trás dos olhos e não acredita quando respondemos que está tudo normal. Talvez seja por isso que tanta gente aprenda a vestir uma versão aceitável de si mesma antes de sair de casa. Uma versão que conversa, brinca, responde mensagens, ri no momento certo e até parece saber para onde está indo, enquanto por dentro continua dando voltas pelo mesmo caminho, tentando descobrir em qual delas deixou alguma parte de si para trás. E o estranho é que, quando isso acontece por tempo suficiente, já não sabemos muito bem onde termina a máscara e começa o rosto. Não porque todo sorriso seja mentira, mas porque algumas pessoas realmente conseguem rir enquanto estão cansadas, conseguem fazer os outros rirem enquanto recolhem os próprios pedaços e conseguem parecer leves justamente porque passaram anos aprendendo a carregar peso sem fazer barulho. Há uma habilidade triste nisso. Principalmente quando o silêncio não nasceu de falta de sentimento, mas do medo do que acontece quando ele finalmente ganha voz. Quem passou tempo demais ouvindo gritos aprende que certas conversas parecem perigosas antes mesmo de começarem; quem foi ferido em momentos de sinceridade começa a tratar vulnerabilidade como uma porta que deveria permanecer trancada; quem teve suas palavras usadas contra si descobre que metáforas são lugares muito mais seguros do que confissões. Então fica mais fácil falar de chuva do que dizer “estou cansado”, falar de espinhos do que admitir “tenho medo que você chegue perto”, falar de uma casca do que confessar “eu não sei mais como sair daqui”. Não é ausência de sentimento. Às vezes é justamente o contrário. Talvez algumas pessoas sintam tanto que precisaram aprender outro idioma para sobreviver ao que sentem. Elas escrevem, fazem piadas, criam histórias, colocam a própria madrugada dentro de uma música, transformam uma ausência em personagem e um medo em imagem, mas travam diante de uma pergunta simples feita olhando nos olhos. “O que aconteceu?” pode ser uma frase pequena demais para tudo aquilo que precisaria caber na resposta. Por onde começar quando os cacos não são de uma única queda? Como explicar que existem feridas que não vieram de um grande acontecimento, mas de pequenas coisas repetidas por anos: a conversa que terminou em ofensa, a confiança que virou piada, a amizade que só existia enquanto era conveniente, a sensação de estar acompanhado e ainda assim continuar sozinho, a expectativa de que você aguente porque sempre aguentou? Talvez seja por isso que algumas pessoas prefiram voltar para casa. Não necessariamente porque odeiam o mundo, mas porque existe um alívio particular em chegar a um lugar onde não precisam interpretar ninguém, prever mudanças de tom ou imaginar a intenção escondida depois de cada palavra. O quarto não pergunta por que você ficou quieto. A parede não exige que você explique o próprio humor. O travesseiro não considera exagero aquilo que você ainda nem sabe nomear. E assim o ninho deixa de ser apenas descanso e começa lentamente a se tornar esconderijo. Lá fora, as pessoas perguntam por que você desapareceu; raramente perguntam o que aconteceu para que desaparecer parecesse mais seguro do que permanecer. É curioso como costumamos estranhar os espinhos sem pensar no que precisou acontecer para que alguém aprendesse a produzi-los. Queremos abraçar a rosa, mas reclamamos quando ela criou maneiras de impedir que qualquer mão chegasse perto demais. Talvez ninguém nasça querendo desconfiar de todo mundo. Talvez isso seja aprendido. Uma promessa que não se cumpriu, uma conversa que deveria acolher e terminou em julgamento, uma pessoa que conheceu suas fragilidades e depois soube exatamente onde atingir. Aos poucos, a defesa vira hábito e o hábito passa a parecer personalidade. “Ele é fechado.” “Ela prefere ficar sozinha.” “Ele não fala sobre nada.” Como se toda distância fosse escolha e toda casca tivesse surgido sem motivo. Só que existe outra contradição ainda mais difícil: mesmo depois de aprender a ficar sozinho, alguma parte continua querendo que alguém atravesse essa distância. Não de qualquer jeito. Não arrombando a porta, exigindo respostas ou pedindo que os espinhos desapareçam antes do abraço. Apenas ficando perto o suficiente para demonstrar que nem toda aproximação termina em ferida. Talvez seja esse um dos pedidos mais escondidos de quem aprendeu a sorrir enquanto se protege: não “me salve”, não “resolva tudo por mim”, mas simplesmente “não vá embora quando descobrir que eu não sou tão bem quanto pareço”. Porque admitir fragilidade ainda parece perigoso quando durante anos ensinaram que chorar diminui alguém, que sentir demais é exagero e que pedir ajuda significa não ter conseguido suportar sozinho aquilo que, aparentemente, todo mundo consegue carregar. Então os cacos continuam sendo juntados em segredo. Um por um. Alguns encaixam, outros não. Alguns pertencem a versões antigas de nós mesmos que talvez nem existam mais. E há noites em que a gente se pergunta se reconstruir significa voltar a ser quem era antes ou aceitar que certas quebras mudam para sempre o formato das coisas. Enquanto isso, o mundo continua funcionando com uma normalidade quase ofensiva. O café esfria. O celular recebe notificações. Pessoas trabalham, estudam, fazem planos, publicam fotografias, perguntam “tudo bem?” e muitas vezes seguem andando antes mesmo de escutar a resposta. Talvez por isso “normal” tenha se tornado uma palavra tão confortável. Ela encerra assuntos. Economiza explicações. Permite continuar. “Tudo normal” pode significar que o dia não trouxe nenhuma tragédia visível, embora por dentro exista uma tempestade procurando algum lugar para cair. E tempestades também possuem suas contradições: desejamos que passem, mas algumas coisas precisam da água que elas trazem. Queremos flores sem aceitar a chuva, queremos proximidade sem suportar vulnerabilidade, queremos pessoas sinceras desde que a sinceridade delas não seja desconfortável demais. Talvez aconteça o mesmo quando alguém finalmente resolve falar. Durante anos perguntamos por que aquela pessoa nunca dizia nada; quando ela diz, descobrimos que ouvir é muito mais difícil do que perguntar. Há sentimentos que não chegam organizados, não obedecem começo, meio e fim, não possuem rima e talvez nem façam sentido quando colocados para fora. Existe raiva misturada com culpa, vontade de ir embora convivendo com medo de ficar sozinho, carinho por pessoas que machucaram, saudade de lugares para os quais não seria saudável voltar. Nem tudo cabe em uma definição bonita. Talvez seja exatamente esse o problema de quem aprendeu a transformar a própria confusão em arte: os outros começam a admirar a forma como a ferida foi descrita e esquecem que havia alguém sangrando antes da metáfora existir. Uma canção pode ser elogiada, uma frase pode ser compartilhada, uma história pode alcançar milhares de pessoas e, ainda assim, aquele que escreveu pode continuar sem saber como dizer a uma única pessoa que precisa de um abraço. O sucesso não resolve automaticamente aquilo que existia antes dele; às vezes apenas aumenta o número de olhos observando uma pessoa que já tinha dificuldade de ser vista de verdade. Quanto mais gente conhece o sorriso, mais complicado pode parecer retirar a máscara. Afinal, existe uma expectativa estranha depositada sobre quem consegue transformar sofrimento em alguma coisa bonita: quase como se a capacidade de escrever sobre a própria escuridão significasse que ela já foi vencida. Mas dar nome a um monstro não significa que ele desapareceu. Cantar sobre aquilo que assombra a madrugada não impede necessariamente que a madrugada volte. Criar alguma coisa com os próprios cacos talvez apenas prove que eles estavam ali. E ainda assim existe algo profundamente humano nessa tentativa. Mesmo quem diz não ser especial deseja, em algum lugar, ser compreendido de um jeito que não pareça superficial. Mesmo quem afirma já estar acostumado com a solidão percebe quando alguém fica. Mesmo quem construiu a casca mais resistente ainda sabe distinguir uma mão que tenta quebrá-la de outra que simplesmente repousa sobre ela. Talvez o problema seja que passamos tanto tempo aprendendo a não nos machucar que, em determinado momento, já não sabemos diferenciar proteção de prisão. Evitamos discussões e também conversas importantes. Evitamos pessoas cruéis e acabamos afastando algumas gentis. Evitamos criar expectativas e, junto delas, certas possibilidades. Continuamos andando para não parar diante das perguntas, embora muitas vezes seja justamente andando que nos percamos pelo caminho. E então voltamos ao conhecido: a casa, o quarto, o café, o espelho, o sorriso. O ciclo parece banal visto de fora, mas talvez dentro dele exista alguém tentando descobrir como permanecer sensível sem continuar sendo ferido por isso, como confiar sem se entregar novamente às mesmas mãos, como chorar sem sentir vergonha do próprio rosto, como ser abraçado sem primeiro precisar esconder todos os espinhos. Não existe uma resposta simples para isso. Talvez nunca tenha existido. Algumas pessoas passam anos acreditando que precisam exterminar cada insegurança antes de merecer proximidade, quando talvez ninguém chegue completamente inteiro a lugar algum. Todos carregamos alguma coisa remendada, alguma frase que ainda incomoda, alguma lembrança que reaparece sem convite, algum pedaço que não conseguimos encaixar. A diferença é que alguns aprenderam a deixar essas marcas visíveis, enquanto outros aperfeiçoaram o sorriso. E talvez seja por isso que certas pessoas pareçam tão bem quando as encontramos na rua: não porque finalmente encontraram o caminho, mas porque ficaram muito boas em caminhar perdidas sem deixar que ninguém perceba. No dia seguinte haverá café outra vez, haverá aquele mesmo rosto esperando no espelho e provavelmente alguém perguntará se está tudo normal. Talvez a resposta continue sendo “sim”. Talvez o sorriso apareça antes mesmo da pessoa decidir usá-lo. Só que, por alguns segundos, enquanto ninguém estiver olhando, quem sabe ela reconheça no reflexo não um rival, nem alguém fraco por ainda carregar os próprios cacos, mas apenas alguém que passou tempo demais tentando sobreviver sem deixar cair a máscara — e que talvez ainda esteja esperando encontrar uma pessoa diante de quem sorrir deixe de ser necessário.

Texto baseado na letra da música ‘Meu Sorriso’, do artista VMZ.

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