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Reflexões e Inspirações 

Carta sem destinatário

Existe um vazio no meu peito que não dói como dor comum. É como um buraco silencioso, daqueles que só quem carrega consegue sentir. Não sangra. Não pulsa. Mas pesa. Às vezes parece que arrancaram algo de mim e esqueceram de fechar o espaço. E eu sigo assim, com esse eco interno, fingindo que não sinto o vento passando por dentro. Eu acordo e ele já está lá. Não importa o quanto eu durma, o quanto eu tente me distrair, o quanto eu ocupe meu dia com barulho. O vazio não se incomoda com nada disso. Ele espera. O mais assustador não é estar vazio. É perceber que eu estou me afastando de mim mesmo enquanto continuo vivendo no meu corpo. Eu me olho e não me reconheço direito. As reações já não são naturais, são calculadas. As respostas vêm antes do sentimento. E quando tento lembrar quem eu era, a imagem vem borrada, como uma memória antiga que perdeu a cor. As coisas que eu gostava… já não doem quando faltam. Mas também já não alegram quando aparecem. Músicas que antes me atravessavam agora só passam. Sonhos que antes me mantinham acordado agora não me acordam mais. Até os pequenos entusiasmos — aqueles que ninguém percebe, mas que sustentam a gente — parecem ter desistido de mim. Não é que eu tenha parado de buscar felicidade. Eu ainda busco. Todos os dias. Mas é como procurar algo que já não mora mais aqui dentro. Eu olho para fora tentando encontrar um reflexo, um sinal, qualquer coisa que me diga que ainda existe algo me esperando. Mas tudo o que encontro é essa sensação estranha de estar perseguindo uma ideia, não uma realidade. Talvez a felicidade não tenha ido embora do mundo. Talvez ela só tenha se retirado de mim. E isso machuca de um jeito diferente. Porque se ela estivesse lá fora, eu poderia alcançá-la. Mas se ela não existe mais aqui dentro…

então eu nem sei por onde começar a procurar. Às vezes penso que eu estou vivendo no modo de sobrevivência emocional. Economizando sentimentos. Racionando esperança. Guardando forças para continuar sendo o que esperam de mim. Porque eu sei que existem pessoas que dependem da minha presença. Da minha estabilidade aparente. Do meu “eu aguento”.

E eu aguento. Mas não porque estou bem. Apenas porque ainda não posso cair. Tem dias em que desaparecer parece menos um desejo de morrer e mais uma vontade absurda de silêncio absoluto. De não precisar sentir esse buraco. De não precisar explicar por que estou cansado de algo que não sei nomear. Mas eu fico. Fico mesmo sentindo que estou me tornando um estranho para mim mesmo. Fico mesmo com medo de um dia acordar e não reconhecer nada do que restou. Fico mesmo com essa pergunta presa na garganta: em que momento eu comecei a me perder e chamei isso de amadurecer? Talvez um dia eu me encontre de novo. Ou talvez eu apenas aprenda a conviver com esse espaço vazio sem tentar preenchê-lo com mentiras. Por enquanto, eu escrevo. Porque enquanto eu consigo colocar esse vazio em palavras, ele ainda não me venceu completamente. E isso… mesmo sendo pouco, é o que me mantém aqui.

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