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Reflexões e Inspirações 

Chega

Existe um ponto silencioso e preciso em que algo dentro da pessoa para de negociar, não com raiva, não com choro, mas com uma clareza fria e definitiva, como se um interruptor tivesse sido desligado sem aviso e sem possibilidade de ser religado. As pessoas ao redor continuam as mesmas, com os mesmos sorrisos calculados, os mesmos pedidos disfarçados de carinho, as mesmas dúvidas jogadas como se fossem preocupação, mas algo mudou, e esse algo não é visível, não faz barulho, não manda aviso. É interno, absoluto e irreversível. A paciência que existia não acabou, ela simplesmente deixou de fazer sentido, como continuar regando uma planta que nunca vai crescer. O que antes parecia tolerância virou apenas adiamento, e o que parecia bondade virou combustível pra quem sabia exatamente onde colocar o fogo. Tem uma certa ironia cruel no fato de que as pessoas que mais se aproveitam de alguém são exatamente as que ficam mais surpresas quando esse alguém decide parar, como se a generosidade fosse uma obrigação contratual e não uma escolha que pode ser revogada a qualquer momento. Elas não percebem, ou fingem não perceber, que cada vez que duvidaram, cada vez que riram, cada vez que chegaram com o problema na mão e sumiram quando o problema passou, foram depositando algo, e esse algo foi acumulando em silêncio, sem reclamação, sem cobrança, até atingir um nível que não comporta mais nada. E aí acontece essa coisa estranha que é difícil de explicar pra quem nunca sentiu, porque não parece libertação, não parece alívio, não tem aquela sensação de peso saindo dos ombros que as pessoas descrevem, é mais parecido com uma temperatura, algo que esfria devagar até estabilizar num ponto onde o calor anterior parece distante e desnecessário. A máscara não é arrancada com força, ela simplesmente perde a cola, cai sozinha, e o curioso é que ninguém ao redor nota a diferença porque nunca prestaram atenção suficiente pra saber o que estava por baixo. Continuam falando, continuam pedindo, continuam duvidando, só que agora falam pra uma versão que não precisa mais responder, que não carrega mais o peso de provar nada, que aprendeu que demonstrar é diferente de ser, e que ser não depende de plateia, não depende de validação, não depende de ninguém que só aparece quando precisa de algo. E a vida continua, os dias passam, as pessoas permanecem as mesmas ao redor, mas existe agora uma distância que não é física, não é frieza, não é mágoa, é só clareza, aquele tipo raro de clareza que não grita, não explica, não justifica, apenas existe, quieta e firme, como algo que sempre deveria ter estado ali e finalmente encontrou seu lugar.

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