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Reflexões e Inspirações 

Filtro

24 de ago.
8 min de leitura

Em algum ponto entre a conscientização necessária e a necessidade que a internet tem de transformar tudo em conteúdo, o autismo começou a correr um risco estranho: deixar de ser invisível para se tornar visível do jeito errado. Quase como um filtro de Instagram. Não porque as pessoas que descobriram ser autistas estejam fingindo, nem porque todo pai, mãe, familiar ou cuidador que fala sobre o assunto esteja tentando aparecer, mas porque redes sociais possuem uma habilidade impressionante de pegar experiências que levariam horas para serem compreendidas e transformá-las em quinze segundos que qualquer pessoa consegue reconhecer, compartilhar e, principalmente, consumir. De repente, uma condição do neurodesenvolvimento que pode afetar comunicação, interação social, processamento sensorial, comportamento, autonomia e inúmeras outras dimensões da existência passa a ser apresentada por uma sequência de características rápidas: não gosto de barulho, tenho hiperfoco, prefiro ficar sozinho, faço movimentos repetitivos, não gosto de certos alimentos, tenho dificuldade social. Um carrossel desliza para o lado, um vídeo termina, alguém comenta “eu sou exatamente assim” e o algoritmo oferece mais dez iguais. O problema não está em alguém se reconhecer ali. Para muita gente, esse reconhecimento foi justamente o primeiro passo para procurar ajuda profissional, compreender anos de desconforto e finalmente encontrar palavras para experiências que antes pareciam apenas defeitos pessoais. O problema começa quando reconhecer uma característica passa a parecer suficiente para compreender uma condição inteira; quando experiência pessoal se transforma em regra; quando sofrimento vira identidade pronta; quando informação médica vira linguagem de tendência; e, principalmente, quando começamos a conhecer tão bem o autismo que funciona no feed que quase esquecemos do autismo que existe quando a câmera é guardada.


Durante muito tempo, porém, aconteceu exatamente o contrário: milhões de pessoas atravessaram a infância, a escola e até boa parte da vida adulta sem serem identificadas, enquanto famílias tentavam entender comportamentos para os quais não encontravam explicação, meninas e mulheres eram menos reconhecidas, adultos aprendiam a imitar comportamentos socialmente esperados e crianças recebiam outros rótulos antes que alguém percebesse o que estava acontecendo. Por isso, qualquer discussão séria sobre o aumento de diagnósticos precisa resistir à conclusão confortável de que “agora todo mundo tem autismo”. O primeiro Censo brasileiro que perguntou sobre diagnóstico de autismo foi justamente o de 2022. Foram contabilizadas cerca de 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico declarado por profissional de saúde, aproximadamente 1,2% da população brasileira. Só o fato de essa pergunta ter aparecido pela primeira vez no maior levantamento populacional do país já revela uma história: durante décadas, discutíamos uma população que sequer sabíamos contar direito. Nos Estados Unidos, dados divulgados pelo CDC a partir de 16 comunidades monitoradas encontraram autismo identificado em aproximadamente 1 a cada 31 crianças de oito anos em 2022. Mas existe um detalhe importante demais para virar legenda pequena: o próprio CDC alerta que os números variam bastante entre regiões e que diferenças de avaliação, identificação e acesso aos serviços ajudam a explicar essa variação. Ou seja, mais diagnóstico não significa automaticamente que alguma geração inventou uma condição; às vezes significa que finalmente aprendemos a procurar aquilo que antes passava despercebido. Talvez parte da confusão esteja justamente aí. Quando uma coisa que sempre existiu começa a receber nome, ela parece ter aparecido naquele instante. É semelhante a acender a luz de um quarto e concluir que os móveis surgiram porque agora conseguimos enxergá-los.


Só que acender a luz não impede que alguém escolha o que mostrar. E é nessa parte que o filtro começa a funcionar. Um estudo que analisou conteúdo informativo entre os vídeos mais vistos relacionados ao autismo no TikTok encontrou algo difícil de ignorar: entre 133 vídeos avaliados, apenas 27% foram considerados precisos; 41% foram classificados como imprecisos e 32% como generalizações excessivas. Os vídeos analisados somavam quase 200 milhões de visualizações, e os pesquisadores não encontraram diferença significativa de engajamento entre informações precisas e aquelas consideradas incorretas ou generalizadas. Para o algoritmo, afinal, verdade e erro podem receber exatamente o mesmo coração vermelho. Isso não transforma a internet em inimiga. Outro estudo, analisando vídeos produzidos por pessoas autistas no TikTok e no YouTube Shorts, encontrou retratos considerados confiáveis de experiências como dificuldades sensoriais, masking, stimming e comunicação, sugerindo que relatos em primeira pessoa também podem combater estigmas e ajudar outras pessoas a se sentirem compreendidas. Talvez a questão nunca tenha sido falar demais sobre autismo. Talvez seja o que acontece quando a plataforma nos ensina quais partes dele merecem ser faladas. A experiência que pode ser resumida em uma curiosidade gera identificação. O hiperfoco pode parecer interessante. A sinceridade pode parecer engraçada. Uma forma diferente de perceber o mundo pode render uma frase bonita sobre neurodiversidade. Há características que cabem perfeitamente em vídeos sobre “coisas que eu fazia e não sabia que eram autismo”. Mas o espectro não termina quando acaba a lista. A Organização Mundial da Saúde lembra algo que deveria parecer óbvio e, ainda assim, frequentemente desaparece das conversas: as habilidades e necessidades das pessoas autistas variam enormemente; algumas vivem de maneira independente, enquanto outras possuem deficiências significativas e podem precisar de cuidado e apoio durante toda a vida. E é curioso perceber como uma sociedade pode aprender rapidamente a admirar a diferença enquanto ainda demonstra enorme dificuldade em conviver com as necessidades que algumas diferenças produzem.


Existe um autismo que recebe curtidas e outro que exige mudança de rotina. Um que rende postagem sobre inclusão e outro que pergunta se a escola realmente possui estrutura para incluir. Um que aparece em abril acompanhado de símbolos, campanhas e textos emocionados e outro que continua existindo quando abril termina, quando a criança precisa voltar para a sala de aula, quando um ambiente cheio se torna insuportável, quando a comunicação acontece de outra maneira, quando uma família precisa reorganizar horários, dinheiro e trabalho, quando um adulto chega exausto em casa depois de passar o dia inteiro tentando parecer confortável em situações que nunca foram confortáveis. Em 2024, o Censo Escolar registrou 918.877 matrículas de estudantes com transtorno do espectro autista na educação básica brasileira, contra 636.202 no ano anterior — crescimento de 44,4% em apenas um ano. É um número que pode ser comemorado como sinal de maior acesso e identificação, mas também pode ser lido como uma pergunta que não cabe no gráfico: as escolas cresceram junto? A formação dos profissionais cresceu junto? Os recursos, o atendimento especializado, o planejamento individual e a compreensão dos colegas cresceram na mesma velocidade? Porque colocar alguém dentro da sala é relativamente fácil de contabilizar. Saber se essa pessoa consegue permanecer, aprender, participar e ser compreendida exige um tipo de estatística que raramente cabe numa postagem comemorativa. Inclusão possui esse problema inconveniente: no discurso, ela custa quase nada; na prática, exige gente, estrutura, conhecimento, adaptação, dinheiro, paciência e disposição para alterar espaços que foram construídos presumindo que todos funcionariam mais ou menos da mesma maneira.


Algo parecido acontece quando a câmera se volta para quem cuida. Existe um tipo de romantização especialmente confortável na imagem da mãe incansável, do pai guerreiro, da família que “foi escolhida para uma missão”, como se transformar cansaço em heroísmo diminuísse o peso que aquela pessoa precisa carregar no dia seguinte. Não diminui. O próprio Ministério da Saúde chama atenção para a necessidade de “cuidar de quem cuida” e reconhece que mães e responsáveis podem ficar sobrecarregados quando não possuem rede de apoio, com consequências para seu bem-estar e para toda a dinâmica familiar. Isso não significa que conviver com uma pessoa autista seja uma tragédia, assim como reconhecer dificuldades não transforma alguém em fardo. Significa apenas abandonar uma mania estranha de nossa cultura: só conseguirmos respeitar determinadas experiências depois de torná-las bonitas. A mãe não precisa ser uma heroína para merecer descanso. O pai não precisa publicar uma homenagem para merecer auxílio. A pessoa autista não precisa ser excepcionalmente talentosa para justificar adaptações. O adulto diagnosticado tarde não precisa apresentar um histórico de sofrimento suficientemente dramático para que a descoberta seja levada a sério. A criança com maiores necessidades de suporte não precisa servir como prova de que existem “autistas de verdade”. E a pessoa autista com maior autonomia não precisa ter suas dificuldades diminuídas porque existe alguém que precisa de mais apoio do que ela. Um espectro não é uma competição para descobrir quem sofre o bastante para conquistar legitimidade.


Talvez seja justamente essa necessidade de escolher extremos que torne a conversa tão pobre. De um lado, existe quem trate qualquer aumento de diagnóstico como evidência de uma moda; do outro, às vezes surge uma versão tão simplificada e agradável do autismo que qualquer menção às limitações, às deficiências associadas ou às necessidades intensas de suporte parece inconveniente. Entre os dois extremos desaparecem pessoas reais. Algumas falam muito; outras não utilizam a fala como principal forma de comunicação. Algumas trabalham, estudam, namoram, moram sozinhas e ainda enfrentam dificuldades que ninguém percebe. Outras dependerão de apoio significativo para atividades cotidianas durante toda a vida. Algumas descobriram cedo. Outras passaram quarenta anos acreditando que eram apenas difíceis, frias, estranhas, exageradas ou incompetentes. Algumas famílias possuem acesso a avaliação, terapia, profissionais, escolas preparadas e redes de apoio. Outras aguardam aquilo que a internet apresenta como se estivesse disponível a dois cliques de distância. A palavra é a mesma. As experiências podem ser quase irreconhecíveis umas para as outras. Talvez seja por isso que transformar o autismo numa estética seja tão tentador: estética elimina contradições. Um filtro não precisa explicar o que removeu da fotografia.


E há outra parte mais desconfortável. Falar sobre autismo também pode se tornar uma maneira de falar sobre nós mesmos. A pessoa que publica o quanto apoia, o familiar que precisa mostrar o quanto cuida, a instituição que troca a foto de perfil, a empresa que produz campanha sobre diversidade, a escola que escreve “aqui todos são bem-vindos”, o influenciador que descobre uma pauta capaz de gerar identificação. Nada disso é necessariamente falso. Muitas mudanças começaram justamente porque alguém decidiu falar. Mas talvez exista uma distância silenciosa entre parecer alguém que acolhe e ser alguém disposto a conviver com aquilo que o acolhimento exige. É relativamente simples defender uma criança autista abstrata. Mais difícil é não reclamar quando ela precisa que o ambiente seja adaptado. É simples compartilhar conteúdo contra o preconceito. Mais difícil é contratar um adulto cuja comunicação não segue exatamente o roteiro esperado numa entrevista. É simples escrever que cada pessoa possui seu próprio tempo. Mais difícil é continuar acreditando nisso quando esse tempo desacelera uma sala inteira. É simples dizer que comportamentos diferentes devem ser respeitados. Mais difícil é não transformar em falta de educação aquilo que simplesmente não compreendemos. Talvez a verdadeira medida da conscientização nunca tenha estado na quantidade de pessoas capazes de definir autismo, mas no número de situações em que alguém consegue encontrar uma pessoa autista real, diferente daquela que imaginou, e ainda assim não exigir que ela se torne mais confortável para os outros.


Por isso, dizer que “autismo virou moda” talvez seja fácil demais. Moda passa. Autismo não. O que pode estar na moda é falar sobre ele, exibi-lo, diagnosticá-lo em vídeos de poucos segundos, utilizá-lo como explicação universal para comportamentos humanos ou transformá-lo em prova pública de sensibilidade. E talvez exista algo ainda mais perverso quando fazemos isso: uma condição que passou décadas lutando para ser vista finalmente ganha espaço, mas descobre que também existe um preço para permanecer visível — ser compreensível, interessante, compartilhável, inspiradora ou, de alguma maneira, bonita. Como um filtro. Ele não inventa necessariamente aquilo que aparece na fotografia; apenas escolhe quais detalhes serão destacados, quais serão suavizados e quais deixarão de chamar atenção. Talvez esteja acontecendo o mesmo quando falamos de autismo. Estamos aprendendo nomes, sinais, símbolos e termos numa velocidade que poucas gerações anteriores tiveram a oportunidade de aprender. Isso é importante. Pode mudar vidas. Pode levar alguém a buscar avaliação. Pode fazer uma mãe perceber que não está sozinha. Pode permitir que uma criança seja compreendida antes de passar anos sendo punida por algo que ninguém tentou entender. Mas conscientização que termina no reconhecimento ainda é uma fotografia pela metade. Porque depois do vídeo existe a escola. Depois da hashtag existe o atendimento. Depois da campanha existe o emprego. Depois da postagem emocionada existe uma família acordando na manhã seguinte. E depois de toda a discussão existe uma pessoa que continuará sendo autista quando ninguém estiver olhando. Talvez a pergunta não seja por que tanta gente passou a colocar o autismo no feed. Talvez seja quantas dessas pessoas continuarão por perto quando ele deixar de caber nele.

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