Intervalo
Ficar sem fazer nada parece ter se tornado uma situação que precisa ser corrigida imediatamente. Basta uma fila demorar um pouco, alguém se atrasar cinco minutos ou o elevador levar mais tempo do que deveria para a mão procurar o celular quase por conta própria, como se alguns segundos de silêncio fossem espaço demais para deixar vazio. Abrimos uma conversa que não pretendemos responder, assistimos a alguma coisa que provavelmente esqueceremos antes do fim do dia, atualizamos uma página que acabamos de atualizar e, quando percebemos, aquele pequeno intervalo que não tinha propósito algum já foi devidamente ocupado. Talvez não exista nada de errado nisso. É confortável ter música enquanto esperamos, vídeos enquanto comemos, mensagens enquanto caminhamos e alguma distração disponível sempre que o mundo fica lento demais; durante muito tempo, inclusive, sonhamos com tecnologias capazes de diminuir o tédio, aproximar pessoas e preencher distâncias que antes pareciam enormes. O estranho é que conseguimos. E agora talvez estejamos descobrindo que o tédio também fazia alguma coisa conosco. Era enquanto olhávamos pela janela do ônibus que uma lembrança aparecia sem ser chamada, enquanto esperávamos alguém chegar que uma pergunta inconveniente encontrava espaço, enquanto caminhávamos sem nada nos ouvidos que certas ideias conseguiam terminar uma frase. Nem todo pensamento importante nasce quando estamos procurando por ele. Alguns parecem precisar justamente desses minutos esquecidos entre uma tarefa e outra, quando a atenção não está ocupada o suficiente para impedir que alguma coisa de dentro faça barulho. Talvez seja por isso que o silêncio incomode tanto em alguns momentos. Não porque nele não exista nada, mas porque nele não existe algo pronto para escolher por nós o que merece atenção. Sem a próxima música, o próximo vídeo, a próxima mensagem ou a próxima novidade, sobra uma companhia que aprendemos a evitar com uma eficiência impressionante: a nossa. E estar consigo mesmo nem sempre é agradável. Há preocupações adiadas, decisões que pareciam resolvidas enquanto havia distração, perguntas que continuam exatamente no lugar em que foram deixadas. Seria injusto transformar tudo isso em uma guerra contra telas, como se desligar o celular automaticamente nos tornasse pessoas mais profundas ou como se o passado tivesse sido uma época de seres humanos permanentemente contemplativos olhando para o horizonte. Sempre encontramos formas de fugir de nós mesmos. A diferença talvez esteja apenas na facilidade. Hoje, quase nenhum vazio precisa permanecer vazio tempo suficiente para revelar o que havia nele. Podemos atravessar um dia inteiro acompanhados por vozes, imagens, opiniões e assuntos sem passar muitos minutos ouvindo aquilo que surge quando ninguém mais está falando. E talvez exista uma consequência discreta nisso: podemos acabar conhecendo cada vez mais coisas enquanto temos cada vez menos ocasiões para perceber o que pensamos sobre elas. Não porque tenhamos perdido a capacidade de refletir, mas porque reflexão também exige espaço, e espaço é justamente aquilo que aprendemos a preencher. Talvez alguns dos momentos que chamamos de inúteis nunca tenham sido inúteis. Talvez esperar, caminhar sem destino por alguns minutos, olhar a chuva ou simplesmente permanecer sentado depois que todo mundo foi embora fossem pequenas pausas em que a vida conseguia nos alcançar sem precisar competir com nada. O curioso é pensar que passamos anos tentando eliminar o tédio e talvez um dia sintamos falta justamente daqueles minutos em que aparentemente nada estava acontecendo.




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