Mais um
Havia alguma coisa especialmente sem graça naquela manhã, embora, pensando bem, talvez não houvesse nada de errado com ela, e esse parecia ser justamente o problema: o despertador tocou na hora de sempre, a janela deixou entrar aquela claridade indecisa que não chega a ser bonita nem feia, algumas notificações já esperavam na tela e o mundo, aparentemente satisfeito com sua própria organização, continuava funcionando sem perguntar se alguém estava realmente disposto a participar dele. Levantar parecia uma formalidade. Escovar os dentes, trocar de roupa, procurar alguma dignidade no espelho, outra. Do lado de fora, carros passavam, pessoas começavam conversas, portas abriam, compromissos existiam e havia algo levemente ofensivo no fato de que tudo pudesse continuar tão normalmente quando, por dentro, a única vontade razoável parecia ser voltar para a cama e negociar com o teto mais algumas horas de existência silenciosa. Não era exatamente tristeza. Tristeza, pelo menos, teria alguma importância. Era mais próximo daquele cansaço que não possui uma causa bonita o bastante para ser explicado, uma espécie de ausência de entusiasmo diante de coisas que, tecnicamente, não fizeram nada para merecer nossa indiferença. A manhã não tinha culpa. A segunda-feira, caso fosse uma segunda-feira, provavelmente também não. Mesmo assim, tudo parecia coberto por uma camada fina de cinza, como uma fotografia esquecida dentro de uma gaveta, até que alguém colocou água para ferver. E então veio o café. Não aconteceu nenhum milagre, evidentemente. Nenhuma música começou a tocar, o sol não atravessou as nuvens em um ângulo cinematográfico e muito menos surgiu uma versão renovada e extremamente produtiva daquele ser humano que, poucos minutos antes, considerava ofensiva a existência de compromissos antes das dez. Mas o cheiro apareceu primeiro, atravessando a cozinha com uma confiança que poucas pessoas possuem às sete da manhã, e talvez seja por isso que café tenha tantos admiradores: ele chega pronto para trabalhar antes de nós. Depois veio a xícara quente entre as mãos. O primeiro gole. Uma pequena queimadura porque, apesar de consumir café todos os dias, aparentemente ninguém aprende que café recém-passado continua sendo quente. O segundo gole foi melhor. No terceiro, o celular parecia um pouco menos agressivo. No quarto, surgiu uma ideia perigosa: talvez desse para responder aquela mensagem. No quinto, o dia já não parecia exatamente bom, mas havia deixado de parecer uma ofensa pessoal. Convenhamos, é um desempenho impressionante para um líquido marrom. E talvez seja nesse ponto que começamos a entender por que tanta gente diz, com um orgulho quase preocupante, que “não funciona sem café”, como se o organismo tivesse assinado algum contrato secreto com uma cafeteira e agora exigisse pagamento diário para liberar funções básicas como conversar, raciocinar e tolerar seres humanos excessivamente animados pela manhã. Há quem tome uma xícara ao acordar, outra quando chega ao trabalho, outra depois do almoço, outra porque alguém perguntou “aceita um café?” e recusar seria praticamente romper um pacto social construído ao longo de gerações, e então aparece aquela última xícara do fim da tarde, tomada por alguém que sabe perfeitamente que pretende dormir cedo e, ainda assim, prefere acreditar que as leis da cafeína talvez abram uma exceção naquele dia. Chamamos isso de vício brincando, compramos canecas dizendo que café é personalidade, discutimos marcas, métodos, torras, quantidades de açúcar, leite, espuma e temperatura como se estivéssemos tratando de assuntos diplomáticos, mas talvez exista alguma coisa escondida nessa devoção que tenha pouco a ver com cafeína. Porque quase nunca bebemos apenas café. Bebemos o minuto antes de começar. Bebemos a pausa entre duas tarefas. Bebemos a conversa que provavelmente não aconteceria se ninguém tivesse perguntado “vamos tomar um café?”. Bebemos os cinco minutos em que é socialmente aceitável ficar parado olhando para uma xícara sem precisar justificar por que não estamos produzindo alguma coisa. E isso é curioso, porque vivemos tentando eliminar intervalos. Respondemos mensagens enquanto esperamos, vemos vídeos enquanto comemos, ouvimos alguma coisa enquanto caminhamos, levamos o telefone até para lugares onde, durante boa parte da história humana, as pessoas foram perfeitamente capazes de permanecer sozinhas com os próprios pensamentos. Parece haver sempre alguma urgência em preencher qualquer espaço vazio antes que ele tenha a oportunidade de se transformar em silêncio. O café, porém, ainda conserva uma estranha permissão para interromper. Ninguém pergunta por que você está parado ao lado de uma janela segurando uma xícara. Você está tomando café. Isso basta. Talvez parte do nosso apego venha daí. Não apenas do gosto, do cheiro ou daquela pequena negociação química que fazemos com o sono, mas da possibilidade de possuir um ritual tão comum que ninguém percebe que, durante alguns minutos, estamos simplesmente existindo. É claro que depois a xícara acaba. Sempre acaba. O trabalho continua lá, as mensagens continuam esperando, os problemas não desaparecem e aquela manhã que começou sem cor não se transforma subitamente em um daqueles dias que alguém teria vontade de guardar para sempre. Ainda assim, alguma coisa mudou. Talvez porque o dia tenha melhorado um pouco. Talvez porque nós tenhamos melhorado um pouco dentro dele. Ou talvez porque, entre acordar e começar, existiu uma mesa, uma cadeira, uma bebida quente e alguns minutos nos quais a vida não precisou ser resolvida. Pensando assim, é engraçado que chamemos tão rapidamente de vício essa vontade de repetir. Pode ser que seja mesmo. Pode ser apenas costume. Pode ser cafeína. Mas também pode haver alguma coisa profundamente humana no desejo de voltar todos os dias ao mesmo pequeno ritual, como quem retorna a um lugar conhecido antes de enfrentar novamente tudo aquilo que ainda não sabe nomear. Amanhã o despertador provavelmente tocará de novo, a luz continuará entrando pela janela sem nenhuma preocupação artística, novas notificações estarão esperando e alguém, em algum lugar, vai prometer pela centésima vez que precisa diminuir o café. Talvez consiga. Só parece prudente deixar uma última xícara antes de começar.




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