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Reflexões e Inspirações 

O que não se ouve

21 de set.
3 min de leitura

Às vezes, alguém diz que está cansado e nós entendemos apenas que dormiu pouco. Alguém começa a se afastar e pensamos que está ocupado. Uma pessoa que costumava conversar passa a responder menos, perde o interesse por coisas que antes faziam sentido, muda de comportamento, tenta disfarçar o que sente ou simplesmente continua cumprindo sua rotina como se nada estivesse acontecendo, e talvez esse seja um dos aspectos mais difíceis do sofrimento humano: por fora, a vida pode continuar parecendo perfeitamente normal enquanto, por dentro, permanecer nela se torna uma tarefa cada vez mais pesada. Nem sempre haverá um pedido de ajuda evidente, uma frase capaz de interromper a rotina ou algum sinal que permita compreender exatamente o que está acontecendo, e talvez por isso falar sobre suicídio exija muito mais cuidado do que repetir durante setembro que as pessoas precisam procurar ajuda. Procurar ajuda pressupõe conseguir admitir que algo não está bem, encontrar palavras para aquilo que às vezes nem se compreende, acreditar que alguém levará esse sofrimento a sério e, principalmente, encontrar alguém disposto a permanecer quando a conversa deixar de ser confortável. Os números ajudam a perceber o tamanho dessa distância. Em 2024, o Brasil registrou 16.751 mortes por suicídio, segundo levantamento do Conselho Federal de Medicina a partir de dados do DataSUS; em 2023, foram aproximadamente 17 mil, o maior número da série analisada. Quase oito em cada dez pessoas que morreram eram homens, e adultos entre 20 e 59 anos concentraram quase dois terços dos registros. Quando olhamos para um período maior, a mudança é ainda mais difícil de ignorar: eram 6.743 mortes em 1996, o que significa que o número anual cresceu 148% até 2024. No mundo, a dimensão também é difícil de transformar apenas em estatística. A atualização publicada pela Organização Mundial da Saúde em agosto de 2026 informa que mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos; a estimativa global comparável mais recente aponta cerca de 727 mil mortes em 2021, 73% delas em países de baixa e média renda. Naquele mesmo ano, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. São números enormes, mas existe algo estranho na maneira como números enormes podem acabar parecendo distantes: 727 mil pessoas cabem em uma frase, 16.751 cabem em uma tabela, uma porcentagem cabe em um gráfico, porém nenhuma dessas formas consegue mostrar completamente a cadeira que fica vazia, a mensagem que não será respondida, o nome que uma família continuará pronunciando ou as perguntas que permanecem com quem ficou. Estatísticas revelam a dimensão de um problema, mas também podem esconder justamente aquilo que deveriam nos fazer enxergar: antes de cada número existia alguém atravessando dias que talvez ninguém ao redor soubesse que eram tão difíceis. E seria simplista imaginar uma causa única. A própria OMS descreve o suicídio como um fenômeno multifatorial, relacionado à interação de fatores sociais, culturais, psicológicos, biológicos e ambientais; crises financeiras, conflitos, perdas, isolamento, violência, discriminação, doenças e sofrimento psíquico podem aumentar vulnerabilidades, mas histórias humanas não obedecem a uma fórmula que permita prever todas elas. Talvez seja justamente por isso que prevenção não possa significar apenas ensinar quem sofre a pedir socorro. Existe também uma responsabilidade de construir lugares nos quais esse socorro possa ser pedido sem vergonha, de tornar o cuidado em saúde mental acessível, de perceber mudanças sem transformar preocupação em julgamento, de levar a sério aquilo que alguém consegue dizer mesmo quando parece pequeno e de compreender que escutar não é imediatamente oferecer uma solução. Não por acaso, a campanha do Setembro Amarelo de 2026 do Centro de Valorização da Vida escolheu como tema “Escutar é estar presente”, chamando atenção para algo aparentemente simples em uma época na qual estamos permanentemente conectados e, ainda assim, nem sempre disponíveis uns para os outros. Talvez tenhamos aprendido a responder rápido demais: aconselhar, comparar, minimizar, lembrar que outras pessoas também enfrentam problemas, procurar uma frase otimista que encerre o desconforto e permita que a conversa volte ao normal. Só que algumas conversas não precisam voltar ao normal tão depressa. Algumas precisam de tempo. Algumas precisam de silêncio sem abandono. Algumas precisam de acompanhamento profissional. E algumas talvez comecem justamente quando alguém percebe que não precisa entender completamente a dor do outro para reconhecer que ela existe. Setembro termina, as campanhas desaparecem das fachadas, o amarelo deixa as redes sociais e outros assuntos inevitavelmente ocupam seu lugar, mas as pessoas que atravessam sofrimento emocional continuam existindo em outubro, novembro, numa terça-feira qualquer, em uma madrugada sem campanha alguma acontecendo. Talvez a importância de setembro esteja menos em pintar um mês de amarelo e mais em questionar o que fazemos depois que a cor vai embora, porque pode ser que muitos pedidos de ajuda nunca tenham sido realmente silenciosos; nós é que ainda estamos aprendendo a ouvir.

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